No qual Hércules é devorado pela Hidra de Lerna.
A Prática Filosófica de Sócrates
By Cadu Simões on julho 21st, 2010Posted In: Blog,Filosofia,Grécia Antiga
Pouco sabemos sobre o Sócrates histórico. Isso se deve ao fato de que ele não deixou nenhuma obra escrita. Tudo o que sabemos sobre Sócrates se baseia nas informações de obras escritas por terceiros, seja lhe retratando de forma elogiosa e entusiasmada, como acontece nas obras de seus discípulos Platão e Xenofonte, seja lhe retratando de forma caricatural e debochada, como acontece na comédia As Nuvens de Aristófanes.
Nesse aspecto, Sócrates se torna para nós uma figura tão misteriosa quanto Jesus, por exemplo. O que temos de ambos são os personagens construídos por terceiros, e não os homens históricos. Como ressalta o historiador Alfred Edward Taylor, a biografia de Sócrates não pode ser o mero registro de fatos, mesmo quando eles são abundantes. O único modo de penetrar no caráter e no propósito que Sócrates possuía é através de um esforço de imaginação construtiva, pois fatos indiscutíveis a respeito dele são extremamente raros.
Um desses fatos que podemos ter como certo é que Sócrates foi julgado e condenado a morte em Atenas, no ano de 399 a.C., sob a acusação de impiedade e por corromper a juventude, como podemos ler na Apologia de Sócrates, de autoria de Platão. Mas em que medida o texto apresentado por Platão é um testemunho fidedigno do julgamento de Sócrates? De certo, a Apologia não se pretende ser um documento histórico. Ela se mostra mais como uma defesa da “memória” de Sócrates. A Apologia é escrita por Platão com o claro intuito de separar a prática filosófica de Sócrates da prática dos sofistas. Deste modo, a representação do julgamento de Sócrates por Platão é muito mais uma reconstrução daquilo que é provável, no mesmo sentido em que Tucídides reconstrói diversos discursos em sua História da Guerra do Peloponeso, como é o caso do famoso discurso fúnebre de Péricles, do que a representação fiel do que de fato aconteceu e foi dito.
A Apologia pertence aos primeiros diálogos de Platão. Esses diálogos são chamados em geral de “diálogos socráticos”, pois têm Sócrates como personagem principal. Eles evidenciam mais claramente a prática e as idéias de Sócrates, um pensador essencialmente moral e ético. Esses primeiros diálogos são também chamados de “aporéticos”, pois fazem o levantamento de diversas questões, mas terminam com essas questões em abertas, inconclusas. Nos diálogos da segunda fase, no qual podemos incluir A República, Sócrates permanece como personagem principal, mas suas idéias já não estão tão claras assim, e estão mescladas aos pensamentos do próprio Platão. E por fim temos os diálogos da terceira fase, como Crítias, em que o platonismo avançou para além das concepções socráticas, os pensamentos próprios de Platão ganham contornos mais nítidos e independentes dos pensamentos de Sócrates que os inspiraram.
A acusação a Sócrates que levou a sua condenação e morte foi feita por Meleto, um jovem poeta, como podemos ver no diálogo Eutífron. Nesse diálogo Sócrates se encontra com Eutífron, um advinho, no Pórtico do Rei. Sócrates está lá justamente para tomar conhecimento da acusação de Meleto efetuada contra ele. Interrogado por Eutífron por qual motivo Meleto o acusa de corromper os jovens, Sócrates responde: “Ah!, meu caro amigo, soa estranho para quem o ouve pela primeira vez. Porque afirma que sou um criador de deuses, acrescentado que invento novos deuses e que não acredito nos antigos”. E Eutífron responde a Sócrates: “Entendo, Sócrates, e acredito que ele esteja se referindo a esse daimon que tu dizes ouvir a todo momento. Ele deduz daí que promoves inovações no que diz respeito ao divino, de onde se origina sua acusação”. Esse daemon (δαίμων) de Sócrates, o qual se refere Eutífron, seria um nume, um tipo de divindade que aconselha Sócrates e refreia certas ações dele. É através da voz divina do daemon, por exemplo, que Sócrates escolhia as pessoas o qual iria “examinar” usando sua prática filosófica.
Na Apologia, tomamos conhecimento que Sócrates não foi acusado só por Meleto, mas também por Ânito, um influente orador e estratego (στρατηγός), e por Lícon, figura de menor importância do qual pouco sabemos. Ânito é certamente o mais importante dos acusadores, e provavelmente partiu dele a idéia dessa ação contra Sócrates, tendo usado os outros dois acusadores como subordinados de seus interesses. Fica claro através da Apologia que não foi por questões religiosa que Sócrates recebeu a condenação, como dá a entender pelas acusações, mas sim por questões políticas. Para Ânito, era justamente a prática filosófica e os ensinamentos de Sócrates que o tornavam um homem perigoso politicamente, a ponto de quererem seu exílio de Atenas, ou mesmo a sua morte. Mas que prática filosófica era essa de Sócrates? O que tinha a ensinar um homem que alegava nada saber?
Na Apologia, Sócrates diz que seu amigo Querofonte perguntou ao oráculo de Delfos se existia alguém mais sábio do que ele. Em resposta a pitonisa disse que não existia ninguém. Sócrates então ficou intrigado com aquela resposta, pois não se considerava de forma alguma sábio, quanto mais o mais sábio dos homens. Acreditando que o oráculo não podia mentir, pois era a voz do deus, no caso, o deus de Delfos, Apolo, Sócrates iniciou uma investigação a cerca dos dizeres do oráculo, e passou a dialogar com aqueles que tinham reputação de sábios. Em sua investigação, Sócrates percebeu que aqueles que se julgavam sábio, na verdade não eram, e que os conhecimentos deles eram inconsistentes. Sócrates então se deu conta de que de fato era mais sábio do que aqueles que se julgavam sábios, mas não por conhecer mais do que eles, e sim por ter consciência de sua própria ignorância, e não dizer como eles que sabe, quando de fato não sabe.
Sócrates passou a acreditar então que uma missão havia lhe sido conferida pelo deus de Delfos, a de examinar e interrogar as pessoas para que percebessem a fragilidade de seus argumentos e obscuridade de seus conhecimentos. Segundo o próprio Sócrates conta em seu julgamento: “…de acordo com a vontade do deus, não deixei de examinar os meus concidadãos e os estrangeiros que considero sábios e, se me parecem que não o são, vou em auxílio do deus revelando-lhes sua ignorância”. Sócrates fez do aforismo escrito no oráculo de Delfos, “conhece-te a ti mesmo” (“γνῶθι σεαυτόν”) a base de sua própria vida. E essa seria a partir dali sua única atividade, como ele mesmo diz na Apologia: “Não tenho outra ocupação senão a de vos persuadir a todos, tanto velhos como novos, de que cuideis menos de vossos corpos e de vossos bens do que da perfeição de vossas almas…”. Essa se torna a principal defesa de Sócrates no julgamento contra a acusação de impiedade. Afinal, se a única coisa que ele faz é seguir as ordens do deus de Delfos, ele não pode ser ímpio como afirma seus acusadores.
Essa prática que Sócrates assumiu a serviço do deus de inquirir e examinar as pessoas que se julgam na posse de “verdades”, refutando os argumentos delas para que percebam sua ignorância, é chamada de elenkhos (έλενχος). Um elemento importante no elenkhos é o que se convencionou chamar de “ironia socrática”. É uma ironia complexa, “o que é dito é e não é significado”, como ressalta Gregory Vlastos. A ironia seria então aquele momento do diálogo em que Sócrates força o interlocutor a expor as suas crenças ao afirma e reafirma que nada sabe, apesar de por vezes saber mais do que seu interlocutor. E é através dessa ironia que Sócrates consegue fazer o interlocutor se perder nos corredores obscuros do labirinto que ele tinha por conhecimento, fazendo-o reconhecer sua própria ignorância. A partir disso, o interlocutor está pronto para, assim como Sócrates, conhecer a si mesmo. Então começa a fase do diálogo que é chamada de maiêutica, em que Sócrates ajuda o seu interlocutor a parir suas próprias idéias, não mais impregnadas por chavões herdados e que são vazios de sentido, mas amparadas pela verdade de sua própria alma.
Esse método, no entanto, só tem eficácia com as pessoas que aceitarem dialogar com Sócrates de forma “amigável”, e que estejam dispostas a exprimirem suas reais crenças, assim como abandoná-las diante da refutação, para então poderem reconstruir seus conhecimentos. Algo assim já não é tão fácil de acontecer com um interlocutor “rebelde”, por melhor que fosse a persuasão e a eloquência de Sócrates.
É interessante notar que em sua defesa descrita na Apologia, em nenhum momento Sócrates apela para a bajulação dos juízes. Como ele mesmo diz: “Parece-me não ser justo rogar ao juiz e fazer-se absolver por meio de súplica; é preciso esclarecê-lo”. Percebemos então que a próprio discurso de Sócrates no julgamento é uma comprovação de sua prática filosófica cotidiana, atribuída a ele pelo deus de Delfos. E a prática de Sócrates é a base que ele usa como prova de que seu argumento é verdadeiro. Se consideramos a concepção posterior de retórica de Aristóteles, em que o ethos (ἦθος) se compõe no logos (λόγος) e pelo logos, o efeito do discurso de Sócrates é de um ethos que se projeta antes do discurso.
No entanto, essa defesa não foi suficiente para absolver Sócrates. Segundo suas palavras na Apologia: “Não foi por falta de discursos que fui condenado, mas por falta de audácia e porque não quis que ouvísseis o que para vós teria sido mais agradável, (…) fazendo e dizendo uma porção de coisas que considero indignas…”. E assim Atenas condenava a morte aquele que talvez tivesse sido seu melhor cidadão. Um homem que defendia a tese de que virtude (aretê, ἀρετή) é conhecimento (episteme, ἐπιστήμη), e portanto, ninguém erra ou é injusto deliberadamente, mas porque desconhece o justo. Mas a virtude é um conhecimento que não pode ser ensinado, é o conhecimento de si mesmo, que deve ser construído por si próprio, a partir de sua própria alma. E porque não traiu sua alma, Sócrates preferiu a morte a continuar vivendo, pois não havia sentido em viver outra vida que não fosse aquela lhe atribuída pelo deus de Delfos. Sócrates então despede-se na Apologia de forma serena de seus concidadãos: “Mas eis a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo, ninguém o sabe, exceto o deus”.
Muito legal esta série de ilustrações feitas pelo designer Ryan Mauskopf mostrando sua visão de como seriam as figuras míticas gregas nos dias atuais. Confiram!

Ícaro sendo atropelado por um avião.

Caronte, outrora o barqueiro do Hades, assustando a guarda costeira.

Tritão, o filho de Poseidon, sendo pescado como um peixe.

Cronos, não satisfeito em devorar seus filhos, vai a um restaurante especializado em carne… humana (pratos vegetarianos então, nem pensar).

É, parece que a Medusa terá que adiar o seu exame de vista mais uma vez.

O Ciclope está tendo dificuldades em assistir Fúria de Titãs 3D. Mas ele não está perdendo nada, já que o 3D desse filme é uma merda mesmo.

Hermes, o deus ladino, em problemas com a polícia.

Cérbero, que um dia já foi o terrível cão guardião dos portões do Hades, agora leva uma vida mansa e pacata.

Eu simplesmente adoro as tiras do Laerte baseadas em mitologia grega, como essa acima em que ele dá sua versão do “Cavalo de Tróia”. Outras boas tiras do Laerte sobre o tema é esta sobre o Hércules e esta outra sobre o Perseu.

Uma das coisas que motivaram o meu gosto por mitologia e cultura grega antiga, a ponto de hoje eu ter me tornado um historiador helenista, foi ter assistido quando criança ao Fúria de Titãs original, de 1981. Por isso, tenho um grande apego por esse filme, e quando soube da notícia de que iriam fazer um remake dele, um misto de excitação e temor se abateu sobre mim.
Fiquei excitado pois, ainda que o filme original possua excelentes animações em stop-motion, feitas por Ray Harryhausen, seria interessante ver como ficaria um remake feito com as tecnologias de computação gráfica de hoje. E de fato, ao ver o trailer do novo Fúria de Titãs em que mostrava o Kraken pela primeira vez, minha empolgação pelo filme aumentou. No entanto, o meu temor continuava a me acompanhar, já que ainda havia a possibilidade desse remake não estar a altura do original. E dado o histórico de remakes ruins feitos por Hollywood, a probabilidade de termos mais um era alta, justificando o meu temor.
Mas eu tinha esperança (bem guardada em minha caixa de Pandora) de que esse Fúria de Titãs seria um bom remake. Esperança essa que escapou da caixa logo que assisti aos primeiros minutos de filme, no qual é narrado a titanomaquia e a divisão do mundo entre os três cronidas; Zeus, Poseidon e Hades. Uma narração em off nos conta que após vencerem os titãs, Zeus se tornou o rei do céus e Poseidon o rei dos mares. Até aí, tudo bem. O problema apareceu quando o narrador seguiu contando que Hades foi enganado por Zeus, e deixado para governar o mundo inferior. Quando ouvi esse trecho, comecei a desconfiar que haviam feito nesse Fúria de Titãs o que considero o pior erro que Hollywood costuma cometer em seus filmes baseados em mitos gregos. E conforme o filme prosseguiu, veio a confirmação; eles de fato cometeram novamente esse erro de transformarem o deus Hades em um vilão maligno e cruel (erro esse que também foi feito no filme de Percy Jackson e o Ladrão de Raios, mas que felizmente não acontece no livro escrito por Rick Riordan do qual ele foi adaptado).
Quando será que os produtores de Hollywood vão aprender que não é porque o Hades é o deus do mundo dos mortos, que isso signifique que ele é um deus mau. Muito pelo contrário. Os diversos registros da tradição helênica que chegaram até nós mostram que o Hades era considerado pelos antigos gregos como um deus justo, por vezes, mais até do que seu irmão Zeus. Essa visão deturpada que muita gente tem do Hades acontece porque o comparam ao diabo, e seu reino ao inferno. E essa é uma comparação completamente errada e anacrônica.

A concepção post mortem da tradição helênica é completamente diferente da concepção judaico-cristã. Para os gregos antigos, todos que morriam desciam como eidolon (ειδωλον) para o reino do Hades, independente do comportamento moral e ético que tiveram em vida. Chegando ao Hades, cada eidolon seria julgado por um dos juízes, Minos, Radamanto ou Éaco, e conforme o julgamento, eram mandados para os submundos que haviam dentro do próprio reino dos mortos. Dentre esses submundos, havia os Campos Elísios, para onde eram enviados os justos; a Ilha dos Bem Aventurados, para onde costumavam ir os heróis após a morte (mas isso não era uma regra, por exemplo, Aquiles, como podemos ler no Canto XI da Odisséia, após a sua morte ficou nos Campos de Asfódelos. Outros heróis nem mesmo chegaram a ir pro Hades, e ascenderam como deuses e foram morar no Olimpo junto aos outros deuses, como é o caso de Hércules). Havia também no Hades o Tártaro, que era um tipo de prisão no qual foram enclausurados vários monstros, titãs, entre outros seres que ousaram desafiar os deuses.
O próprio modo como a morte era encarada na grécia antiga é bem diferente da forma como é feita atualmente. Em geral, a morte é vista nos dias de hoje como algo triste e ruim. Os antigos gregos, por outro lado, não enxergavam a morte como algo necessariamente penoso e lamentável. Eles acreditavam que uma pessoa só poderia ser considerada feliz após uma vida plena, o que, obviamente, só acontecia com a morte. Portanto, era comum na grécia antiga, sobretudo no período micênico, os funerais serem uma grande festa em homenagem a vida que o defunto teve, ao invés de uma lamentação de sua morte, como costuma ser atualmente. E especificamente entre os espartanos, morrer em batalha era considerado a maior honra que um homem poderia ter.
Outra coisa que me descontentou nesse Fúria de Titãs foi a trama principal, em que Hades tenta destronar Zeus para assumir o trono do Olimpo. Além disso ser um clichê horrível (inclusive, a mesma trama tinha acabado de ser usada no filme Percy Jackson e o Ladrão de Raios), isso vai também completamente contra a tradição helênica. Não há nenhum mito em que Hades tente usurpar o Olimpo. E se entendermos como os antigos gregos concebiam a divisão do mundo entre os deuses, veremos porque não havia motivos pro Hades querer o Olimpo.
Diferente do que é mostrado no começo desse Fúria de Titãs, segundo a Teogonia de Hesíodo, a divisão do mundo entre os cronidas teria sido feita pela sorte (e não pela vontade de Zeus), pois nem mesmo os deuses podiam contrariar a vontade do Destino (ora representado nos mitos por um único ser, Moros, filho de Nix, ora representado na figura das três Moiras; Cloto, Láquesis e Átropos). Hades, ao contrário do que é mostrado nesse filme, não foi enganado por Zeus a reinar sobre o mundo dos mortos, como se esse reino fosse inferior aos céus. Não era essa a visão da tradição helênica, como podemos confirmar em uma passagem da obra Fasti, de Ovídio. Nesta passagem, Zeus diz: “Eu governo sobre os céus, mas meu reino não é em nada superior ao de Poseidon ou de Hades”. Hades, portanto, não tinha porque almejar o Olimpo, pois seu reino em nada devia ao de Zeus. Pelo contrário, a tradição grega considerava o reino de Hades como o maior de todos, pois Hades simplesmente reinava sobre todos que um dia já viveram (o que não é pouca gente). Não é à toa que um dos epítetos de Hades era Plutão (que significa rico, abastado).

E percebam que as críticas que estou fazendo neste texto não é pelo fato de Fúria de Titãs não ser exatamente igual aos mitos gregos. Seria até estupidez da minha parte exigir isso, pois mesmo o Fúria de Titãs original toma diversas liberdades com relação a tradição grega, e mesmo assim considero um excelente filme. E isso se deve ao fato do filme original respeitar a essência, a identidade, o comportamento e o caráter dos deuses e heróis (características que no grego antigo são definidas por uma única palavra, ethos (ἦθος), como podemos ver na Poética de Aristóteles).
Mesmo na antiguidade, os autores em suas obras representavam cada um a seu modo os mitos e as figuras míticas, mas sempre respeitando o ethos de cada personagem. Por exemplo, ainda que o Odisseu representado nas obras de Homero não seja exatamente igual ao Odisseu que aparece em Eurípides, e muito menos igual ao Odisseu de Sêneca, todos esses autores mantém em suas obras o ethos de Odisseu, que é o fato dele ser um herói astuto, que sempre vence os inimigos e obstáculos através da inteligência, e não pela força bruta. Para aqueles que não estão familiarizados com a literatura antiga, vou pegar um exemplo moderno que todos com certeza devem conhecer, o Super-Homem. Ainda que haja diferenças entre as histórias do Super-Homem nos quadrinhos, nos filmes, e nos seriados, todas essas obras mantém o ethos do Super-Homem, que é o fato dele ser um herói justo, que não mede esforços em ajudar os outros, um verdadeiro escoteiro. Se fizessem um filme do Super-Homem em que ele fosse um egoísta, escroto e sacana , contrariando completamente seu ethos, isso certamente iria desagradar os espectadores. Pois transformar o Hades num deus maligno é o mesmo que transformar o Super-Homem num herói sacana.
Mas enfim, parece que essa visão deturpada de Hades apresentada nesse novo Fúria de Titãs foi algo que só desagradou a mim, tendo em vista a excelente bilheteria que o filme vem fazendo lá fora, e acredito que também fará no Brasil, quando estrear no dia 21 de maio. Talvez se eu não fosse um helenista não teria ligado pra nenhum desses problemas apontados aqui e teria gostado do filme. Mas a única certeza que tenho é que continuo preferindo o Fúria de Titãs original.
Confronto dos Deuses – Zeus
By Cadu Simões on abril 20th, 2010Posted In: Blog,Grécia Antiga,História Antiga,Mitologia Grega
O History Channel está exibindo o documentário “Confronto dos Deuses” (“Clash of the Gods”) sobre a mitologia grega. Cada episódio é dedicado a um figura mitológica em específico, como é o caso do episódio postado acima, dedicado a Zeus, o soberano do Monte Olimpo e líder do panteão helênico.
Apesar de muito bom, esse documentário comete alguns deslizes, como chamar Hesíodo de escritor. Como já expliquei neste post, Hesíodo (assim como Homero) era um aedo (um tipo de bardo) e provavelmente compôs suas obras de forma oral, e não escrita. Tantos as obras de Hesíodo quanto de Homero só vieram a ser postas no papel no séc. VI, cerca de 4 séculos depois de suas composições. Até então essas obras (e os próprios mitos) eram passada de geração em geração através de uma cultura oral (semelhantes a dos índios brasileiros, ou a de diversas tribos africanas). E é por essa característica mnemônica que os aedos tinham uma grande adoração por Mnemosine (a própria memória divinizada) e sua filhas, as Musas.
Outra falha que o documentário comete é dizer que o hades é o equivalente grego ao inferno. Como já expliquei na minha resenha do filme Percy Jackson e o Ladrão de Raios, é um erro comparar o hades ao inferno, já que segundo a crença dos antigos gregos, todos que morriam iam pro Hades, independente de qualquer julgamento moral e ético (como é feito na tradição judaico-cristã).
Mas apesar desses erros, vale muito a pena assistir a esse documentário, pois ele não se limita a apenas contar os mitos, mas também os contextualiza historicamente, principalmente através dos artefatos e registros arqueológicos. Afinal, como eu também já disse neste outro artigo, os mitos são constituídos historicamente e refletem a mentalidade e os valores de uma sociedade em uma determinada época.






















