Poster de Fúria de Titãs

Uma das coisas que motivaram o meu gosto por mitologia e cultura grega antiga, a ponto de hoje eu ter me tornado um historiador helenista, foi ter assistido quando criança ao Fúria de Titãs original, de 1981. Por isso, tenho um grande apego por esse filme, e quando soube da notícia de que iriam fazer um remake dele, um misto de excitação e temor se abateu sobre mim.

Fiquei excitado pois, ainda que o filme original possua excelentes animações em stop-motion, feitas por Ray Harryhausen, seria interessante ver como ficaria um remake feito com as tecnologias de computação gráfica de hoje. E de fato, ao ver o trailer do novo Fúria de Titãs em que mostrava o Kraken pela primeira vez, minha empolgação pelo filme aumentou. No entanto, o meu temor continuava a me acompanhar, já que ainda havia a possibilidade desse remake não estar a altura do original. E dado o histórico de remakes ruins feitos por Hollywood, a probabilidade de termos mais um era alta, justificando o meu temor.

Mas eu tinha esperança (bem guardada em minha caixa de Pandora) de que esse Fúria de Titãs seria um bom remake. Esperança essa que escapou da caixa logo que assisti aos primeiros minutos de filme, no qual é narrado a titanomaquia e a divisão do mundo entre os três cronidas; Zeus, Poseidon e Hades. Uma narração em off nos conta que após vencerem os titãs, Zeus se tornou o rei do céus e Poseidon o rei dos mares. Até aí, tudo bem. O problema apareceu quando o narrador seguiu contando que Hades foi enganado por Zeus, e deixado para governar o mundo inferior. Quando ouvi esse trecho, comecei a desconfiar que haviam feito nesse Fúria de Titãs o que considero o pior erro que Hollywood costuma cometer em seus filmes baseados em mitos gregos. E conforme o filme prosseguiu, veio a confirmação; eles de fato cometeram novamente esse erro de transformarem o deus Hades em um vilão maligno e cruel (erro esse que também foi feito no filme de Percy Jackson e o Ladrão de Raios, mas que felizmente não acontece no livro escrito por Rick Riordan do qual ele foi adaptado).

Quando será que os produtores de Hollywood vão aprender que não é porque o Hades é o deus do mundo dos mortos, que isso signifique que ele é um deus mau. Muito pelo contrário. Os diversos registros da tradição helênica que chegaram até nós mostram que o Hades era considerado pelos antigos gregos como um deus justo, por vezes, mais até do que seu irmão Zeus. Essa visão deturpada que muita gente tem do Hades acontece porque o comparam ao diabo, e seu reino ao inferno. E essa é uma comparação completamente errada e anacrônica.

Fúria de Titãs - Hades e Calibos

A concepção post mortem da tradição helênica é completamente diferente da concepção judaico-cristã. Para os gregos antigos, todos que morriam desciam como eidolon (ειδωλον) para o reino do Hades, independente do comportamento moral e ético que tiveram em vida. Chegando ao Hades, cada eidolon seria julgado por um dos juízes, Minos, Radamanto ou Éaco, e conforme o julgamento, eram mandados para os submundos que haviam dentro do próprio reino dos mortos. Dentre esses submundos, havia os Campos Elísios, para onde eram enviados os justos; a Ilha dos Bem Aventurados, para onde costumavam ir os heróis após a morte (mas isso não era uma regra, por exemplo, Aquiles, como podemos ler no Canto XI da Odisséia, após a sua morte ficou nos Campos de Asfódelos. Outros heróis nem mesmo chegaram a ir pro Hades, e ascenderam como deuses e foram morar no Olimpo junto aos outros deuses, como é o caso de Hércules). Havia também no Hades o Tártaro, que era um tipo de prisão no qual foram enclausurados vários monstros, titãs, entre outros seres que ousaram desafiar os deuses.

O próprio modo como a morte era encarada na grécia antiga é bem diferente da forma como é feita atualmente. Em geral, a morte é vista nos dias de hoje como algo triste e ruim. Os antigos gregos, por outro lado, não enxergavam a morte como algo necessariamente penoso e lamentável. Eles acreditavam que uma pessoa só poderia ser considerada feliz após uma vida plena, o que, obviamente, só acontecia com a morte. Portanto, era comum na grécia antiga, sobretudo no período micênico, os funerais serem uma grande festa em homenagem a vida que o defunto teve, ao invés de uma lamentação de sua morte, como costuma ser atualmente. E especificamente entre os espartanos, morrer em batalha era considerado a maior honra que um homem poderia ter.

Outra coisa que me descontentou nesse Fúria de Titãs foi a trama principal, em que Hades tenta destronar Zeus para assumir o trono do Olimpo. Além disso ser um clichê horrível (inclusive, a mesma trama tinha acabado de ser usada no filme Percy Jackson e o Ladrão de Raios), isso vai também completamente contra a tradição helênica. Não há nenhum mito em que Hades tente usurpar o Olimpo. E se entendermos como os antigos gregos concebiam a divisão do mundo entre os deuses, veremos porque não havia motivos pro Hades querer o Olimpo.

Diferente do que é mostrado no começo desse Fúria de Titãs, segundo a Teogonia de Hesíodo, a divisão do mundo entre os cronidas teria sido feita pela sorte (e não pela vontade de Zeus), pois nem mesmo os deuses podiam contrariar a vontade do Destino (ora representado nos mitos por um único ser, Moros, filho de Nix, ora representado na figura das três Moiras; Cloto, Láquesis e Átropos). Hades, ao contrário do que é mostrado nesse filme, não foi enganado por Zeus a reinar sobre o mundo dos mortos, como se esse reino fosse inferior aos céus. Não era essa a visão da tradição helênica, como podemos confirmar em uma passagem da obra Fasti, de Ovídio. Nesta passagem, Zeus diz: “Eu governo sobre os céus, mas meu reino não é em nada superior ao de Poseidon ou de Hades”. Hades, portanto, não tinha porque almejar o Olimpo, pois seu reino em nada devia ao de Zeus. Pelo contrário, a tradição grega considerava o reino de Hades como o maior de todos, pois Hades simplesmente reinava sobre todos que um dia já viveram (o que não é pouca gente). Não é à toa que um dos epítetos de Hades era Plutão (que significa rico, abastado).

Fúria de Titãs - Hades

E percebam que as críticas que estou fazendo neste texto não é pelo fato de Fúria de Titãs não ser exatamente igual aos mitos gregos. Seria até estupidez da minha parte exigir isso, pois mesmo o Fúria de Titãs original toma diversas liberdades com relação a tradição grega, e mesmo assim considero um excelente filme. E isso se deve ao fato do filme original respeitar a essência, a identidade, o comportamento e o caráter dos deuses e heróis (características que no grego antigo são definidas por uma única palavra, ethos (ἦθος), como podemos ver na Poética de Aristóteles).

Mesmo na antiguidade, os autores em suas obras representavam cada um a seu modo os mitos e as figuras míticas, mas sempre respeitando o ethos de cada personagem. Por exemplo, ainda que o Odisseu representado nas obras de Homero não seja exatamente igual ao Odisseu que aparece em Eurípides, e muito menos igual ao Odisseu de Sêneca, todos esses autores mantém em suas obras o ethos de Odisseu, que é o fato dele ser um herói astuto, que sempre vence os inimigos e obstáculos através da inteligência, e não pela força bruta. Para aqueles que não estão familiarizados com a literatura antiga, vou pegar um exemplo moderno que todos com certeza devem conhecer, o Super-Homem. Ainda que haja diferenças entre as histórias do Super-Homem nos quadrinhos, nos filmes, e nos seriados, todas essas obras mantém o ethos do Super-Homem, que é o fato dele ser um herói justo, que não mede esforços em ajudar os outros, um verdadeiro escoteiro. Se fizessem um filme do Super-Homem em que ele fosse um egoísta, escroto e sacana , contrariando completamente seu ethos, isso certamente iria desagradar os espectadores. Pois transformar o Hades num deus maligno é o mesmo que transformar o Super-Homem num herói sacana.

Mas enfim, parece que essa visão deturpada de Hades apresentada nesse novo Fúria de Titãs foi algo que só desagradou a mim, tendo em vista a excelente bilheteria que o filme vem fazendo lá fora, e acredito que também fará no Brasil, quando estrear no dia 21 de maio. Talvez se eu não fosse um helenista não teria ligado pra nenhum desses problemas apontados aqui e teria gostado do filme. Mas a única certeza que tenho é que continuo preferindo o Fúria de Titãs original.

Tentativas de Mitologia
Tentativas de Mitologia
 R$ 29,90 
Veja mais
[ Compare Preços ]
Mundo Grego, O
Mundo Grego, O
 R$ 29,90 
Veja mais
[ Compare Preços ]
Eco Grego, O
Eco Grego, O
 R$ 29,90 
Veja mais
[ Compare Preços ]
Fadas: Mitologia
Fadas: Mitologia
 R$ 29,90 
Veja mais
[ Compare Preços ]

Posts Relacionados:

  1. Novo Trailer de Fúria de Titãs Saiu mais um trailer do remake de Fúria de Titãs....
  2. Trailer do Novo Fúria de Titãs Confiram o trailer do filme Fúria de Titãs, dirigido por...
  3. Novíssimo Trailer de Fúria de Titãs Foi disponibilizado na Internet mais um trailer do novo Fúria...
  4. Assita ao “Fúria de Titãs” Original no Youtube Enquanto o remake de Fúria de Titãs não estréia no...
  5. Quadrinhos de Fúria de Titãs Aproveitando os últimos posts sobre o remake de Fúria de...

Discussion (31) ¬

  1. Panda

    de fato concordo com voce, mas confesso que este novo furia de titãs tem sim todo um charme. mas tava mais do que obvio que hades seria tratado como vilão. enfim infelizmente hollywood so faz oque vende bem uma unica vez e reaproveita certas formulas eternamente. mas vale a pena se quem ver o filme começar a pesquisar a historia e e obvio que vera um hades tatalmente diferente.

  2. Jay.

    Adorei o post =) Como eu ainda não sei muito sobre mitologia, pensei que Hades fosse realmente um deus ruim, mas após ler isso, mudei de ideia, obrigada! :)

  3. [Kain]"

    Muito bom artigo, excelente mesmo, caro colega de profissão.

    Só um ponto que eu gostaria de comentar. É a tragetória até a morte, e não a morte em si, que era bem quista entre os gregos. O Hades é a terra do esquecimento, onde os heróis e os camponeses são a mesma coisa. Cantar as honras na terra dos mortais é uma fprma de manter viva a lembrança do herói, mas o próprio Aquilies diz preferir “ser o mais baixo dos servos na terra do que um herói no Hades” . Os próprios Campos elíseos são uma construção posterior.

    Vão me faltar as fontes à mão agora, então peço desculpas antecipadamente.

    E parabéns pelo trabalho.

  4. Cadu Simões

    Você está certo, Kain.

    E de fato os Campos Elísios não aparece em Homero, sendo que os primeiros registros que teremos sobre ele só irão aparecer nos poemas mélicos do periodo arcaico.

    Agora é interessante essa fala de Aquiles na Odisséia que vc trouxe, pois ela é justamente um dos principais argumentos daqueles que defendem que a Ilíada e a Odisséia não foram compostas pelo mesmo autor. Segundo esses helenistas, essa fala demonstra que a visão da morte que o Aquiles tem na Ilíada é bem diferente da visão da morte que ele nos traz na Odisséia, e se as duas obras tivessem sido feitas por um mesmo autor, não haveria essa diferença. Enquanto na Ilíada Aquiles aceita seu destino, de morrer jovem em batalha (e assim em glória) para ser eternizado pelo canto dos aedos, como vc bem salientou, na Odisséia ele lamenta para Odisseu a sua condição no Hades.

    Eu não sei se concordo com essa teoria, mas ela é interessante. E na verdade, estou mais pro lados daqueles helenistas que defendem que Homero nunca existiu, sendo que tanto a Ilíada quanto a Odisséia são uma composição coletiva feita progressivamente por vários aedos através de uma tradição oral passada de geração a geração, até que enfim os poemas se cristalizaram e foram passados pro papel no Sec. VI a.C

  5. William Busa

    Ai Cadú, fiko massa esse artigo, estou lendo bastante coisa de mitologia e to aprendendo muita coisa interessante, vou assistir esse filme, e tenho q terminar de ler os livros de mitologia q são vários…. até o anime friends!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  6. Wilerson

    Os diversos registros da tradição helênica que chegaram até nós mostram que o Hades era considerado pelos antigos gregos como um deus justo, por vezes, mais até do que seu irmão Zeus.

    “Por vezes”? “Zeus justo” é piada, né?

  7. Cadu Simões

    Piada por que?

  8. Rak M Nay

    Olha eu particularmente acredito que a maioria das pessoas concordam comigo que os filmes atuaís possuem a significancia e tratamento de uma masturbação de cenas de ação e efeitos especiais.
    Assitimos pra passar o tempo, nos divertimos e em alguns dias ja esquecemos completamente.

    Constatei isso em uma conversa aonde colegas demonstraram ter se esquecido completamente de recentes blockbusters como jornada ao centro da terra 3D e Cloverfield, que fizeram um estardalhaço a alguns anos atras e ja foram completamente esquecidos.
    O pior é que assisti alguns desses filmes com essas pessoas e eu mesmo esqueci agora dos outros filmes que comentei nesse dia.

    E Hollywood segue bem essa onda de fast food gastando centenas de milhões em tecnicos sem se importar com o conteudo só com o lucro imediato garantido.

    Duvido que algum desses filmes vai marcar alguma criança hoje em dia como furia de titãs nos marcou.
    Acredito que em 20 anos as novas gerações vâo se lembrar mais dos filmes bobos do jackie chan do que desses blockbusters.

  9. Wilerson

    O mais próximo que vi foi Zeus sendo parcial a alguns heróis (a maioria filhos dele – aliás, vai ter filho com mulheres aleatórias na PQP). De resto, manda o abutre comer o fígado do Prometeu, transforma fulana em rio, transforma outra em bicho, transforma outro em pedra…

  10. Cadu Simões

    Bem, não lembro de nenhum mito (e estou falando dos registros clássicos, e não de registros posteriores que sofrem interferência da ética e moral de outros povos e tradições) em que Zeus seja parcial e injusto em sua função de deus dos deuses e dos homens, seja com relação ao outros deuses ou com relação aos mortais.

    Precisamos sempre ver os mitos com a mentalidade da época, e não com a nossa, do contrário, cairemos no mesmo erro que esse novo Fúria de Titãs está cometendo com relação a Hades, ao projetar de forma anacrônica uma ética e moral cristã sobre um outro tipo de visão e mentalidade sobre a morte e o pós-vida.

    Então mitos em que nos parece que Zeus esteja sendo injusto em sua ações, talvez não esteja sendo injusto de fato se olharmos esses mitos sobre o ponto de vista das pessoas e do período em que esses mitos foram criados. Assim, utilizando um exemplos que vc deu, o fato de Zeus ter vários filhos com várias mulheres diferentes pode parecer imoral para nossa tradição, mas não era necessariamente pra tradição grega, principalmente no período micênico, no qual a maioria desses mitos surgiram. Quando Zeus pune alguém no mito, como o Prometeu que vc citou, era considerado pela tradição micênica como uma punição justa (Prometeu roubou o fogo sagrado e foi punido por Zeus, então o mito deixa bem claro noções morais como “se você roubar algo, será punido” e “se você desrespeitar os deuses, também será punido).

    E no que se refere aos próprios ritos cotidianos, Zeus era considerado o deus que regia a justiça nas assembleias. Zeus era representado simbolicamente pelo cetro. Quem falava numa assembleia, tinha que falar segurando o cetro, pois isso significava que a pessoa que fala estava imbuída pelo espírito de Zeus, e portanto, falaria apenas a verdade e não cometeria injúrias e injustiças a nenhum outro cidadão.

  11. Renato

    Você não é unico tb me chateia muito estas coisas, sobre tudo como foi no Percy Jackson e ladrão de raios…

  12. CrazyGirls.com

    Adorei o post!
    por sinal, adoro td q tenha a ver com mitologia grega!
    - Carol Sophie

  13. Raphael Schmitz

    As vezes é legal deixar de lado a importancia que damos para o que achamos que sabemos para poder aproveitar um pouco as coisas. Os helenistas que se levam muito a serio não devem gostar muito de God of War, o que é uma pena. Assim como os fisicos e bioquimicos mais carolas que devem achar The Fringe uma afronta. Tudo questão de relaxar e ver se a historia agrada.

  14. Cadu Simões

    Raphael, vc está enganado. Ao menos este helenista aqui adora God of War. Os três jogos possuem uma excelente história, que apesar de todas as liberdades tomadas com relação aos mitos tradicionais, respeita o ethos das pesonagens míticas (incluindo Hades), diferente do que acontece nesse novo Fúria de Titãs, como já bem demonstrei no meu texto.

    Ah, e eu não levo nada muito a sério neste mundo. Muito menos eu mesmo.

  15. Joba Tridente

    Olá, Cadu. Parabéns pelo site. Que bom achar algo assim na rede. Também sou (nem tanto quando no passado) um estudioso dos mitos. Nasci católico apostólico romano, mas na adolescência, ao questionar a religião e não ter respostas, virei um livre pensador. Pouco depois encontrei todas as respostas que procurava sobre o todo e o nada na Mitologia Grega. Na década de 1970 comprei (a prestação) o que considero uma das mais importantes aquisições: Paidea (chamado de O Pai dos Gregos), de Werner Jaeger, Editora Herder (1343 pg), que me serve até hoje. O problema, ou melhor, a questão incômoda na Mitologia, é que os leigos não conseguem ver além do Mito. O verbo, a narrativa é a representação do signo, que significa o mito, dando-lhe forma e (mesmo) transubstanciação. Sem o verbo (oral ou escrito) o mito não subsiste. É interessante ver como Schopenhauer trabalha isso em O Mundo Como Vontade e Representação. Quanto a Fúria de Titãs, também concordo contigo. Por mais “Ingênuo” (e talvez por isso) que seja o filme original, ele é superior a esta cinecópia de 2010. Pelo menos naquele os Deuses não se vestiam como destaques de Escola de Samba ou celebridades prontas pra desfilar num dos famosos Desfiles de Fantasias do Hotel Glória.

  16. Cadu Simões

    Oi Joba. Eu conheço muito pouco de Schopenhauer, e nunca de fato li alguns de seus textos (falha que pretendo consertar em breve), mas Werner Jaeger foi bibliografia básica na faculdade, e Paidea é realmente um livro que indico para qualquer um que queira entender mais a fundo a cultura e a mentalidade na grécia antiga.

    E valeu pelos parabéns. Fico feliz que tenha gostado do site.

  17. FARUK

    não incomodou só a você.. incomodou muito a mim também… foi ótimo ler algo de alguém com mais conhecimento mostrando que o que eu senti realmente tem fundamento… O filme original eu também assisti em minha infância, e este marcou meu imaginário e ajudou em minhas escolhas pelo gosto que tenho pela mitologia em geral.
    Porém meu amigo que assistiu o filme comigo, e que não conhecia a mitologia por trás, ficou comparando o tempo todo com o filme do Ladrão de Raios, que eu ainda não vi; e também notou algo de estranho com Hades, como se ele fosse mais próximo da mitologia Cristã.

    No fim das contas, ainda prefiro ficar com o antigo filme, aliás a Medusa do antigo é bem melhor e mais convincente que a de agora…rs

  18. Espantalho

    Excelente post, parabéns. Aqui envio as minhas considerações a respeito da refilmagem:

    http://alertageral.wordpress.com/2010/04/19/cabeca-dinossauro-ou-como-pensam-os-executivos-de-hollywood-em-um-ato/

    Abraço,
    Espantalho

  19. Carlos Alberto, o Beto

    Muito bom o texto! Parabéns! Seu conhecimento helenístico é impressionante. Quanto ao filme, o achei bom, mas nada de sensacional. E quanto ao ethos modificado de Hades, não que issa deva ser defendido, mas não acho que deva ser crucificado. Assim como se fizessem um Super-Homem mais sacana eu ia achar bem legal. =D
    Parabéns mais uma vez pelo texto!

  20. Aisha Lang

    Só não fiquei realmente decepcionada com o filme porque já sabia que eles iam bagunçar em algo. E foi logo com o Hades! Fiquei revoltada! Passei o filme explicando o que estava errado no filme. Me senti uma chata mas a minha prima se mostrou mais interessada em eu explicando quem é quem e o absurdo que é esse Hades do que prestar atenção na história do filme. Continuo amando o ‘Fúria de Titãs’ original.

  21. Cadu Simões

    Beto, como expliquei no texto desse post, uma das traduções para ethos é essência. Portanto, o ethos é o conjunto de características básicas que definem alguém e fazem desse alguém ser quem ele é. Então, se o ethos dele for modificado, ele não será mais quem é.

    Sendo assim, se o Super-Homem tem seu ethos alterado, passando a ser um herói sacana, ele simplesmente deixaria de ser o Super-Homem. Pra continuarmos nos exemplos de personagens modernos, se o Wolverine fosse um herói todo certinho como o Super-Homem, da mesma forma ele deixaria de ser o Wolverine.

    O que distingue os personagem uns dos outros é o ethos, que deve ser preservado. Do contrário, se for pra alterar o ethos, não há razão em se usar esse personagem. Será melhor o autor usar um outro personagem que se ajuste ao ethos que ele quer, ou criar um completamente novo, do que desfigurar e deturpar o ethos de um personagem que já existe, fazendo com que ele deixe de ser quem é.

    Por isso que poderiam muito bem terem colocado o Diabo no lugar do Hades apresentado nesse novo Fúria de Titã, porque de Hades mesmo, o personagem que eles mostraram não tem nada.

  22. Cadu Simões

    Aisha, eu também costumo me sentir um chato quando tento explicar esse tipo de coisa pras pessoas. =D

    Afinal, o cinema e a TV são mídias que possuem uma carga de persuasão muito alta, e portanto, se trazem informações erradas e deturpadas, acabam educando as pessoas de forma errada e deturpada. E aí quando você tenta explicar pra pessoas o correto, invariavelmente você será tachado de chato, ou coisas piores.

    Mas como ser chato é quase que um pré-requisito para ser um historiador, sobretudo quanto a ser chato com a precisão e a rigorosidade das informações que são transmitidas, eu nem me preocupo mais em ser tachado dessa maneira. =)

  23. Leticia

    Olá Cadú, parabéns por suas explicações que nos ajudam por demais a entender melhor o mundo helênico. Eu também fico com o Fúrias de Titãs original, parece que até os efeitos especiais são melhores(levando em conta a evolução que tivemos) devido aos erros históricos grotescos.
    Sabe de uma coisa, na minha ignorância, eu acho que fizeram dessa forma por algum motivo, não só visando o lucro, mas com alguma intenção manipuladora por trás.
    Letícia.

  24. ZéBedeu

    Gente, achei o remake um desperdício de talentos e efeitos.

    Sinceramente se deixassem a coruja (presente que Perseu ganha de Athena no filme antigo) teriam salvo alguma coisa do filme (ô figurinha simpática!!!!!)

    Filme curto demais, chega a ficar escancarado que teve algo errado na produção, tudo atropelado, às pressas, o filme não flui bem.

  25. Indi-chin

    Eu sou fanzoca do Hades e odeiei MUITO o que fizeram com ele na adaptação do Percy Jackson. Ainda vou virar uma Roteirista e mostrar a verdadeira face do Hades pra todo mundo e *Sonha alto* oó’

  26. Wander

    Bem, eu asssiti duas vezes Furias de Titãs 2010 (apesar do péssimo roteiro), pq eu queria perceber a diferença de 3D para a versão normal. Nem vou falar de termos técnicos como a pessima atuação do Sam (sem o menor carisma pra interpretar um de meus heróis preferidos), do roteiro absurdo, da caracterização ridicula (como o Zeus com aquela armadura brilhando, wtf).

    O problema de Hollywood é esse! Acham que podem mudar tudo, colocar as coisas em seu ponto de vista apenas para “entretenimento”. Um saco! “Queremos um vilão, ôpa, vamos pegar o Hades, veja só, ele tá no ‘inferno’ msm, vai ser fácil o povo associa-lo ao mal, basta colcoarmos uma caractizaração medonah e uma voz rouca manipulada no computador: pronto, um vilão pronto”. O que não deixa de ser patético, já que no para fazer isso, eles criam uma historia absurda, que cai em contradição em um roteiro extremamente fraco!

    Tá eu nunca tive lá minha simpatia por Hades, principalmente pq sempre axei ele um FDP por ter raptado Perséfone, rs; mas a visão dos leigos de associá-lo ao “demônio” me irrita.

    Alias, sobre o tópico e alguns comentários que li, precisamos deixar claro que o FILME de Percy Jackson foi apenas uma adaptação (mt péssima, por sinal) do livro. No livro deixa bem claro que Hades não é nada mal; apesar de mostra-lo como um Deus amargurado, mal-humorado e tals. Inclusive (spoiler) ele ajuda Percy na luta final para salvar o Olimpo e a Terra.

  27. Fernanda Brahemcha

    Eba, yuhuuu! Parabéns a todos os helenistas, pelo jeito a mitologia grega acabou de ser contemplada com uma edição própria da boa e velha fórmula “Como pegar um (a)história/cultura/conceito/universo/mitologia/qualquer coisa que valha a pena, amassar, diminuir, espremer, recortar, simplificar, adequar, enfraquecer, arredondar, limpar de ironias/sarcasmos/coisas complicadas de absorver e originar uma obra que ofereça entreteninemento, de preferência para um público-alvo definido”. Já aconteceu com várias coisas diferentes, “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, “Star Trek”, “Harry Potter”, “As Brumas de Avalon”… todos esses já passaram por severas simplificações e adequações. E a Ilíada também teve sua vez com “Tróia”. Isso fora a ala “Remakes Desnecessários”, que dá assunto pra caramba. E, não adianta, a gente fala que vai ignorar e parar de se incomodar com isso, mas eu pelo menos nunca consegui.

    Tá, vai, *revoltada com certos rumos da arte mode off*, mas esse tipo de coisa vem acontecendo em adaptações já há algum tempo. Não quero ser injusta, não acho que o cânone seja algo cristalizado e intocável, na verdade mudanças, adaptações, novas visões, novos enfoques, tudo isso é ótimo, eu diria até necessário, para ampliar idéias, e quando bem feito acaba fortalecendo ainda mais o original e se conectando a ele de um jeito que deixa ambos em um universo fortalecido. Mas nem sempre é o que acontece.

    Às vezes a adaptação origina uma coisa que pode ser considerada um negócio bacana se você conseguir deixar de lado aquela raivinha interior que fica te lembrando das injustiças e simplificações, dos recortes que foram feitos para fazer o quadro caber na moldura que queriam. O pior é quando aquela era justamente a sua parte favorita da pintura… quando o que te faz gostar do negócio é justamente a presença daquelas idéias, sacadas, daquelas coisas que orbitam naquele sistema e que foram consideradas “impróprias”, “complicadas” ou “inadequadas” por quem adaptou. Aconteceu comigo atualmente, quando vi o filme novo de “Star Trek”, tá, muita gente elogiou o filme e tal, eu coloco na categoria “bacana como filme, se fechando em si, mas ruim como adaptação”. Peço por favor para as pessoas que nunca viram a série não basearem seu conceito de Star Trek somente nesse filme. É exatamente como você disse, às vezes a adaptação convence porque, junto com as novas idéias, manteve o “ethos” dos personagens em questão. Foi isso que mais me incomodou nesse filme “Star Trek”, as essências dos personagens foram profundamente desrespeitadas (alguns mais, alguns nem tanto). Isso fora a pretensa idéia de “sobstituição” que esse filme carregou, uma das piores coisas que uma adaptação ou remake pode fazer é carregar a idéia de substituição, como se achasse que está apagando o original e escrevendo por cima. Ah, para, um remake saudável complementa, aumenta, não substitui.

    Caso ainda pior que esse, na minha opinião, foi o filme de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, porque o filme foi ruim mesmo, e o problema não estava no “ethos” de alguns personagens, mas na essência da própria obra, da narrativa do Douglas Adams mesmo. Ah, por favor, convenhamos, uma obra de Douglas Adams linear e adequada deixa de ser uma obra de Douglas Adams.

    Tá, depois dessa digressão toda, voltemos ao que mais ou menos seria considerado a linha principal do assunto: ah, o maniqueísmo judaico-cristão colocando seus dedinhos em tudo… não tem jeito, esse grudou em parte das manifestações artísticas que nem chiclete no cabelo. Acho que essa é a oitava praga. “O moralismo judaico-cristão há de de espalhar pela Arte… muahahaha…”. E as outras mitologias são as que mais sofrem com esse domínio de território da mitologia judaico-cristã, né. A grega, como você discutiu no post, sofre bastante no quesito maniqueísmo, Hades sendo muitas vezes pintado como vilão, Zeus sendo colocado de vez em quando como “o bom rei” que ele não necessariamente é, e por aí vai. A mitologia celta também sofre com o moralismo judaico-cristão, e Cernunnos, um dos deuses mais conhecidos, ter um par de chifres só piorou a situação. E não é incomum ver druidas representados como demoníacos bruxos do mal. A questão do machismo presente nos livros sagrados judaico-cristãos também pesa no julgamento do druidismo de vez em quando.

    Bem, então, pelo jeito, não é só por ser helenista que você se incomodou com o processo de “adequação” da mitologia grega que viu nesse filme, dá pra ver que tem mais gente compartilhando da sua dor aqui… vou procurar o “Fúria de Titãs” de 1981 pra assistir, e depois vejo o novo pra sofrer um pouco…

    PS: Desculpa a crise de verborragia no espaço de comentários… mas é que é um assunto comprido mesmo…

  28. Cadu Simões

    Oi Fernanda. Não precisa se desculpar. Considero a opinião dos leitores como parte essencial do blog, e comentários como o seu sempre agregam mais valor ao conteúdo do post. =)

  29. Adriana Campos

    Faz tempo que não leio um artigo tão interessante e principalmente de meu interesse, eu amo mitologia grega, tambem tive a mesma espectativa ao assistir Fúria de Titas e tambem a mesma decepçao ao ver que o filme fugia em algumas partes da história orginal, além de Hades outro erro foi que Acrisio é avô de Perseu e não marido de sua mãe e ele matou a propria filha com o neto pela a desonrra feita ao seu reino e fez isso por vingança ao Deus Zeus. Realmente não há mais respeito pela cultura nos filmes, os valores enfatizados nos filmes atuais ,são

  30. Adriana Campos

    continuando…
    são as lutas, armações e mortes. Pena esses autores não penssarem que as pessoas passam parte da vida assistindo filmes e sendo insentivados por eles. Adriana Campos

Pings & Trackbacks ¬

Comment ¬

NOTE - You can use these tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>