Imortais - Teseu e os Deuses Olimpianos

Como eu já esperava, Imortais, a mais nova tentativa de Hollywood de transpor a mitologia grega para os cinemas, não se trata de uma adaptação do mito de Teseu (de nenhuma das versões que nos foi passada pela literatura e iconografia grega clássica). Trata-se de um filme que apenas toma emprestado o herói ateniense, mas praticamente recria toda a história dele do zero.

Podemos perceber isso logo pela estética adotada pelo filme. As vestimentas e a arquitetura das construções que são retratadas na película lembram muito mais o oriente médio, ou mesmo a Índia, do que a Grécia antiga. Mesmo o visual dos deuses gregos é completamente diferente do retratado na iconografia clássica. Mas apesar de todas essas mudanças, eu gostei do visual do filme. É uma estética muito bonita e que salta aos olhos.

Como meus leitores bem sabem, não sou contra adaptações livres da mitologia grega (afinal, é justamente isso que eu faço nas minhas histórias em quadrinhos de Nova Hélade). O que eu detesto é quando uma adaptação dessas desrespeita o ethos dos personagens tradicionais, sobretudo os heróis e deuses, como aconteceu com Hades no remake de Fúria de Titãs. Imortais não comete esse erro, apesar que também não chega a desenvolver o ethos dos personagens profundamente.

Após uma epígrafe com uma citação de Sócrates, Imortais começa narrando a teogonia (do grego antigo, Θεογονία, que significa literalmente “origem dos deuses”). Mas não é a Teogonia de Hesíodo, ou qualquer outra herdada pela tradição grega (como a teogonia órfica). Como eu já disse, o filme recria praticamente tudo do zero.

Imortais - Rei Hyperion

Nessa teogonia de Imortais, houve uma batalha entre duas raças de seres imortais. Os vencedores se autoproclamaram deuses, e os perdedores foram chamados de titãs, e presos nas entranhas do monte Tártaro (ou seja, uma história que apenas remete de leve a Titanomaquia tradicional). Durante essa batalha, uma arma de incrível poder, o arco de Épiro (que é uma arma criada pela história do filme, e não existe na mitologia grega), foi perdida.

A trama do filme então se resume ao rei Hyperion, que odeia os deuses e pretende libertar os titãs novamente. Para isso, ele precisa do arco de Épiro, que aparentemente é a única arma capaz de destruir a prisão dos titãs. Nisso, somos apresentados ao herói Teseu, que tem sua mãe morta por Hyperion, e quer vingança. Assim, Teseu acaba se tornando o único homem capaz de impedir Hyperion de atingir seu objetivo.

Confesso que não gostei muito da trama do filme. Talvez por já ter visto esse lance de “homem que odeia os deuses olimpianos e liberta os titãs para ajudá-lo a vencer os deuses” diversas vezes em outras histórias que adaptam a mitologia grega (e uma das mais recentes a usar essa trama foi o game God of War). Ou seja, para quem costuma acompanhar adaptações da mitologia grega como eu (seja livros, filmes, animações ou games) vai achar a história um tanto batida.

Mas apesar disso, gostei da forma como o tema da imortalidade foi abordado no filme, pois esse é um dos temas mais recorrentes na literatura grega. O herói grego busca conseguir sua imortalidade através da glória, do grego antigo kléos (κλέος). É através do kléos que o herói passa a ter os seus feitos cantados pelos aedos. E enquanto os feitos do herói forem cantados e recontados, ele será imortal. E isso é muito bem representado no filme pela fala de Teseu. Ao ser tentado por Hyperion com a mesma imortalidade dos deuses, ele responde: “Feitos são eternos, não a carne”.

Imortais - Teseu e seu Bando

Imortais estreia nos cinemas brasileiros no dia 30 de dezembro, e traz o ator Henry Cavill como Teseu e Mickey Rourke como o rei Hyperion. Se você gosta de filmes de ação e aventura épica, e não liga muito pra complexidade da trama, provavelmente vai gostar de Imortais. Agora se você esperava por uma adaptação fiel do mito de Teseu, e não curte muito interpretações livres da mitologia grega, recomendo passar longe.