Poster de Fúria de Titãs

Uma das coisas que motivaram o meu gosto por mitologia e cultura grega antiga, a ponto de hoje eu escrever uma história em quadrinhos como Nova Hélade, foi ter assistido quando criança ao Fúria de Titãs original, de 1981. Por isso, tenho um grande apego por esse filme, e quando soube da notícia de que iriam fazer um remake dele, um misto de excitação e temor se abateu sobre mim.

Fiquei excitado pois, ainda que o filme original possua excelentes animações em stop-motion, feitas por Ray Harryhausen, seria interessante ver como ficaria um remake feito com as tecnologias de computação gráfica de hoje. E de fato, ao ver o trailer do novo Fúria de Titãs em que mostrava o Kraken pela primeira vez, minha empolgação pelo filme aumentou. No entanto, o meu temor continuava a me acompanhar, já que ainda havia a possibilidade desse remake não estar a altura do original. E dado o histórico de remakes ruins feitos por Hollywood, a probabilidade de termos mais um era alta, justificando o meu temor.

Mas eu tinha esperança (bem guardada em minha caixa de Pandora) de que esse Fúria de Titãs seria um bom remake. Esperança essa que escapou da caixa logo que assisti aos primeiros minutos de filme, no qual é narrado a titanomaquia e a divisão do mundo entre os três cronidas; Zeus, Poseidon e Hades. Uma narração em off nos conta que após vencerem os titãs, Zeus se tornou o rei do céus e Poseidon o rei dos mares. Até aí, tudo bem. O problema apareceu quando o narrador seguiu contando que Hades foi enganado por Zeus, e deixado para governar o mundo inferior. Quando ouvi esse trecho, comecei a desconfiar que haviam feito nesse Fúria de Titãs o que considero o pior erro que Hollywood costuma cometer em seus filmes baseados em mitos gregos. E conforme o filme prosseguiu, veio a confirmação; eles de fato cometeram novamente esse erro de transformarem o deus Hades em um vilão maligno e cruel (erro esse que também foi feito no filme de Percy Jackson e o Ladrão de Raios, mas que felizmente não acontece no livro escrito por Rick Riordan do qual ele foi adaptado).

Quando será que os produtores de Hollywood vão aprender que não é porque o Hades é o deus do mundo dos mortos, que isso signifique que ele é um deus mau. Muito pelo contrário. Os diversos registros da tradição helênica que chegaram até nós mostram que o Hades era considerado pelos antigos gregos como um deus justo, por vezes, mais até do que seu irmão Zeus. Essa visão deturpada que muita gente tem do Hades acontece porque o comparam ao diabo, e seu reino ao inferno. E essa é uma comparação completamente errada e anacrônica.

Fúria de Titãs - Hades e Calibos

A concepção post mortem da tradição helênica é completamente diferente da concepção judaico-cristã. Para os gregos antigos, todos que morriam desciam como eidolon (ειδωλον) para o reino do Hades, independente do comportamento moral e ético que tiveram em vida. Chegando ao Hades, cada eidolon seria julgado por um dos juízes, Minos, Radamanto ou Éaco, e conforme o julgamento, eram mandados para os submundos que haviam dentro do próprio reino dos mortos. Dentre esses submundos, havia os Campos Elísios, para onde eram enviados os justos; a Ilha dos Bem Aventurados, para onde costumavam ir os heróis após a morte (mas isso não era uma regra, por exemplo, Aquiles, como podemos ler no Canto XI da Odisséia, após a sua morte ficou nos Campos de Asfódelos. Outros heróis nem mesmo chegaram a ir pro Hades, e ascenderam como deuses e foram morar no Olimpo junto aos outros deuses, como é o caso de Hércules). Havia também no Hades o Tártaro, que era um tipo de prisão no qual foram enclausurados vários monstros, titãs, entre outros seres que ousaram desafiar os deuses.

O próprio modo como a morte era encarada na grécia antiga é bem diferente da forma como é feita atualmente. Em geral, a morte é vista nos dias de hoje como algo triste e ruim. Os antigos gregos, por outro lado, não enxergavam a morte como algo necessariamente penoso e lamentável. Eles acreditavam que uma pessoa só poderia ser considerada feliz após uma vida plena, o que, obviamente, só acontecia com a morte. Portanto, era comum na grécia antiga, sobretudo no período micênico, os funerais serem uma grande festa em homenagem a vida que o defunto teve, ao invés de uma lamentação de sua morte, como costuma ser atualmente. E especificamente entre os espartanos, morrer em batalha era considerado a maior honra que um homem poderia ter.

Outra coisa que me descontentou nesse Fúria de Titãs foi a trama principal, em que Hades tenta destronar Zeus para assumir o trono do Olimpo. Além disso ser um clichê horrível (inclusive, a mesma trama tinha acabado de ser usada no filme Percy Jackson e o Ladrão de Raios), isso vai também completamente contra a tradição helênica. Não há nenhum mito em que Hades tente usurpar o Olimpo. E se entendermos como os antigos gregos concebiam a divisão do mundo entre os deuses, veremos porque não havia motivos pro Hades querer o Olimpo.

Diferente do que é mostrado no começo desse Fúria de Titãs, segundo a Teogonia de Hesíodo, a divisão do mundo entre os cronidas teria sido feita pela sorte (e não pela vontade de Zeus), pois nem mesmo os deuses podiam contrariar a vontade do Destino (ora representado nos mitos por um único ser, Moros, filho de Nix, ora representado na figura das três Moiras; Cloto, Láquesis e Átropos). Hades, ao contrário do que é mostrado nesse filme, não foi enganado por Zeus a reinar sobre o mundo dos mortos, como se esse reino fosse inferior aos céus. Não era essa a visão da tradição helênica, como podemos confirmar em uma passagem da obra Fasti, de Ovídio. Nesta passagem, Zeus diz: “Eu governo sobre os céus, mas meu reino não é em nada superior ao de Poseidon ou de Hades”. Hades, portanto, não tinha porque almejar o Olimpo, pois seu reino em nada devia ao de Zeus. Pelo contrário, a tradição grega considerava o reino de Hades como o maior de todos, pois Hades simplesmente reinava sobre todos que um dia já viveram (o que não é pouca gente). Não é à toa que um dos epítetos de Hades era Plutão (que significa rico, abastado).

Fúria de Titãs - Hades

E percebam que as críticas que estou fazendo neste texto não é pelo fato de Fúria de Titãs não ser exatamente igual aos mitos gregos. Seria até estupidez da minha parte exigir isso, pois mesmo o Fúria de Titãs original toma diversas liberdades com relação a tradição grega, e mesmo assim considero um excelente filme. E isso se deve ao fato do filme original respeitar a essência, a identidade, o comportamento e o caráter dos deuses e heróis (características que no grego antigo são definidas por uma única palavra, ethos (ἦθος), como podemos ver na Poética de Aristóteles).

Mesmo na antiguidade, os autores em suas obras representavam cada um a seu modo os mitos e as figuras míticas, mas sempre respeitando o ethos de cada personagem. Por exemplo, ainda que o Odisseu representado nas obras de Homero não seja exatamente igual ao Odisseu que aparece em Eurípides, e muito menos igual ao Odisseu de Sêneca, todos esses autores mantém em suas obras o ethos de Odisseu, que é o fato dele ser um herói astuto, que sempre vence os inimigos e obstáculos através da inteligência, e não pela força bruta. Para aqueles que não estão familiarizados com a literatura antiga, vou pegar um exemplo moderno que todos com certeza devem conhecer, o Super-Homem. Ainda que haja diferenças entre as histórias do Super-Homem nos quadrinhos, nos filmes, e nos seriados, todas essas obras mantém o ethos do Super-Homem, que é o fato dele ser um herói justo, que não mede esforços em ajudar os outros, um verdadeiro escoteiro. Se fizessem um filme do Super-Homem em que ele fosse um egoísta, escroto e sacana , contrariando completamente seu ethos, isso certamente iria desagradar os espectadores. Pois transformar o Hades num deus maligno é o mesmo que transformar o Super-Homem num herói sacana.

Mas enfim, parece que essa visão deturpada de Hades apresentada nesse novo Fúria de Titãs foi algo que só desagradou a mim, tendo em vista a excelente bilheteria que o filme vem fazendo lá fora, e acredito que também fará no Brasil, quando estrear no dia 21 de maio. Talvez se eu não fosse um helenista não teria ligado pra nenhum desses problemas apontados aqui e teria gostado do filme. Mas a única certeza que tenho é que continuo preferindo o Fúria de Titãs original.