– O Monte Olimpo – disse eu. – Você está me dizendo que realmente existe um palácio ali?
– Bem, agora há o Monte Olimpo na Grécia. E há o lar dos deuses, o ponto de convergência dos seus poderes, que de fato costumava ser no Monte Olimpo. Ainda é chamado de Monte Olimpo, por respeito às tradições, mas o palácio muda de lugar, Percy, assim como os deuses.
– Você quer dizer que os deuses gregos estão aqui? Tipo… nos Estados Unidos?
– Bem, certamente. Os deuses mudam com o coração do Ocidente.

De tanto me dizerem que os livros de Percy Jackson e os Olimpianos são semelhantes a minha história em quadrinhos Nova Hélade, resolvi enfim ler O Ladrão de Raios, primeiro volume dessa série criada por Rick Riordan.

Mas antes de fazer a minha análise sobre esse livro (com spoilers, estejam avisados), cabe aqui uma pequena sinopse pra quem não conhece a história. A série de Percy Jackson de fato parte de uma premissa semelhante a de Nova Hélade: E se os deuses da mitologia grega realmente existissem? Além disso, e se eles permanecessem atuantes mesmo após o apogeu da grécia antiga? E então temos a diferença básica com relação a minha HQ, pois os livros de Percy Jackson se passam nos dias atuais (e até onde percebi, sem nenhuma alteração na nossa história mundial), enquanto Nova Hélade é ambientada em um mundo de história alternativa, num cenário futurista cyberpunk.

Em O Ladrão de Raios somos apresentados ao protagonista Perseu Jackson, ou simplesmente Percy, como gosta de ser chamado. Percy é um garoto de 12 anos, rebelde, que não consegue se encaixar dentro da norma, e por isso é sempre expulso dos colégios internos em que sua mãe o matricula. Até que Percy descobre o motivo de se sentir tão deslocado; ele na verdade é um semi-deus (ou meio-sangue, como é chamado no livro), filho de um dos grandes deuses helênicos.

Muitos tem apontado a série Percy Jackson como o sucessor natural da série Harry Potter. Isso não é por acaso, já que ambos os livros tem como foco o público adolescente. Pelo que pude perceber em alguns fóruns na Internet, há até uma certa rivalidade entre os leitores das duas obras, com os fãs de Harry Potter até mesmo acusando Rick Riordan de simplesmente ter copiado a obra de J. K. Rowling.

As semelhanças entre a duas obras são inegáveis, mas não podemos ir ao radicalismo de dizer que se trata de mero plágio. Longe disso. Essas semelhanças existem porque tanto a história do garoto semi-deus de Riordan quanto do bruxinho maconheiro (desculpem, não resisti a piada) de Rowling estão amparados por uma estrutura narrativa antiquíssima (com pelo menos 4 mil anos de idade) que o mitólogo Joseph Campbell nomeou como monomito, mas ficou mais conhecida como “A Jornada do Herói”.

O monomito está presente nos épicos antigos como Gilgamesh e a Odisséia, e também em épicos modernos como O Senhor dos Anéis e Star Wars. E por se tratar de uma estrutura mítica, não poderia também deixar de estar presente em uma história baseada em mitologia grega como a de Percy Jackson, ou mesmo em Harry Potter, que além de mitologia grega, também possui elementos de mitos de origem celta, saxão e nórdico.

A Jornada do Herói nos aponta para um traçado narrativo que pode ser visto claramente em O Ladrão de Raios (assim como em Harry Potter e tantos outros heróis). Ela começa com a infância do herói, criado longe do pai ou da mãe (ou de ambos), e já logo como bebê recebendo sua primeira provação, que é vencida, demonstrando assim a sua origem divina/mágica/sobrehumana. Mas é só na adolescência que o herói descobre sua verdadeira origem, tendo então que partir em uma aventura iniciatória, que é composta por uma série de trabalhos, obstáculos e inimigos, que se vencidos, dará ao herói o devido reconhecimento como senhor dos dois mundos, tanto do mundo mortal na qual ele foi criado, quanto do mundo divino/mágico/sobrehumano do qual ele descende. Mas o herói nunca está sozinho em sua aventura, e recebe a orientação de um mentor, podendo ainda contar com a ajuda e amizade de outros heróis, que também estão passando por seus próprios caminhos de provas.

Como podemos ver, neste resumo que fiz do monomito (e trata-se de um resumo mesmo, pois a coisa é um tanto mais complexa), podemos encaixar facilmente a história de diversos heróis, desde Hércules, Perseu e Odisseu, até o Homem-Aranha, o Superman ou o Batman. E também, é claro, Harry Potter e Percy Jackson. Se você quer conhecer mais sobre o monomito, em toda a sua complexidade, recomendo ler a obra máxima de Joseph Campbell, O Herói de Mil Faces (e depois leia uma história em quadrinhos do Homem-Grilo que fiz e que relaciona a obra de Campbell aos quadrinhos de Super-Heróis, intitulado O (Super) Herói de Mil Faces).

Mas voltando ao livro O Ladrão de Raios, apesar dele não ser voltado para leitores adultos como eu, gostei muito da história. Ela possui bastante aventura, e bons mistérios, que podem surpreender até mesmo um bom conhecedor de mitologia grega. Eu mesmo comecei lendo o livro tendo certeza que Percy fosse filho de Zeus, por ser o principal deus do panteão olimpiano. Mas no terceiro capítulo, quando a mãe de Percy disse que conheceu o pai dele na praia, já não tinha tanta certeza com relação a Zeus e comecei a desconfiar de um outro deus. Até que no capítulo seis, quando Percy faz a primeira demonstração real de seu poder, controlando a água das privadas no banheiro do acampamento meio-sangue, então minha desconfiança foi confirmada, e ali percebi que ele na verdade era filho de Poseidon (ou Posídon, ou ainda Posidão, dependendo da grafia adotada).

No entanto, outros mistérios se tornam evidentes logo de cara pra quem tem um mínimo de conhecimento sobre mitologia. Como no caso da Tia Eme, no capítulo onze, que muito facilmente já da pra sacar quando ela aparece que se trata da Medusa (apesar disso não atrapalhar nem um pouco o desenvolvimento da cena).

O que me surpreendeu também foi descobrir no final que o Hades não era o vilão da história. Tinha certeza de que ele seria o vilão, pois é muito comum nas histórias baseadas em mitologia grega feita pelos norte-americanos, seja em livro, filmes, quadrinhos ou desenhos animados, colocarem o Hades como vilão. Isso acontece, acredito, devido ao fato do EUA ser um país majoritariamente de religião cristã protestante, então eles costumam fazer uma analogia do Hades e seu reino com o diabo e o inferno, o que é uma analogia extremamente errada.

Como é bem mostrado nos capítulos finais de O Ladrão de Raios, quando os personagens descem ao reino dos mortos, segundo a tradição helênica, todos que morrem, descem como sombras (eidolon (ειδωλον)) para o Hades (a não ser que deixem de pagar o barqueiro, é claro), independente de seu comportamento, moral e ética em vida. Então lá eles são julgados por um dos juízes como Minos e Radamanto, ou ainda pelo próprio Hades, e de acordo com o julgamento, enviados para os submundos que existem dentro do próprio Hades, como os Campos Elísios, para onde vão as pessoas boas, ou a Ilha dos Bem Aventurados, para onde vão geralmente os heróis (digo geralmente pois isso não é uma regra, Aquiles por exemplo, ficou nos Campos de Asfódelos, como podemos ver no Canto XI da Odisséia. Outros heróis, como Hércules, nem mesmo chegaram a ir pro Hades, e ascenderam como deuses e foram morar no Olimpo) ou o Tártaro, que seria um tipo de prisão de segurança máxima para onde foram enviados alguns monstros, Titãs, e muitos outros que resolveram se opor ao reinado de Zeus e enfrentá-lo (e que claramente foram derrotados).

No entanto, mesmo não colocando Hades como vilão, Riordan o classifica diversas vezes com adjetivos como “enganador”, “cruel” e “ganancioso”, o que está bem longe do Hades retratado na tradição helênica. Ele não era de modo algum visto como um deus cruel ou ganancioso, muito menos enganador. Pelo contrário, diversas vezes na tradição literária grega ele é descrito como um deus extremamente justo, por vezes, até mesmo mais do que Zeus. Hades era sim temível e vingativo, mas na medida em que todos os deuses helênicos também eram (e os mitos mostram que todos que tentaram enfrentar os deuses, se deram muito mal). Mas de forma alguma ele era visto como um deus mau. Até mesmo porque Hades não era encarado como o responsável pelas mortes . E nada mais lógico os antigos gregos verem Hades desta forma, afinal, ele era apenas o senhor dos reino dos mortos, e se as pessoas morriam, a culpa não era dele, oras. =)
Em geral as mortes eram atribuídas a deuses como Ares, no caso de uma morte violenta, ou a Apolo, em caso de uma morte por doença ou peste.

Lendo O Ladrão de Raios, percebi que Rick Riordan possui um bom conhecimento sobre mitologia e literatura grega, e apesar de modernizar o visual dos deuses (e nada mais lógico que os deuses assumam aparências de acordo com os novos tempos), ele tende a respeitar e seguir a tradição mítica e literária da grécia antiga, com algumas raras exceções como no caso de Hades, qualificando-o como um deus cruel, como escrevi acima. Ou no caso de Dionísio, transformando ele num deus do vinho que não bebe e com um baita mal humor, diferente da descrição mítica que retrata ele como um deus alegre e sempre sorridente – e sempre bêbado, é claro. =)

Apesar que, por se tratar de um livro infanto-juvenil, é compreensível que Riordan não queira incentivar os jovens a beberem (pelo menos não tão logo cedo), e por isso fez de Dionísio um tipo de integrante de algum grupo de “Deuses Alcoólatras Anônimos”. E por aí também dá pra entender o porquê dele estar sempre de mal-humor, ao contrário de sua personalidade alegre retratada na tradição (eu também se fosse um deus do vinho que tivesse sido proibido de beber, com certeza ficaria muito mal humorado).

Agora com relação a Palas Atená, Rick Riordan não segue de forma alguma a tradição grega, e eu não entendi o porquê disso. Explico melhor. É dito no livro que uma das protagonistas, Annabeth, é filha de Atená. Mas como? Afinal, a deusa não era chamada de “a virgem de olhos glaucos” à toa. Mas aí você pode me dizer que o autor não tem obrigação nenhuma de seguir a tradição e manter a deusa da astúcia como virgem. Concordo. Mas com relação a Ártemis, ele seguiu a narrativa mítica tradicional, e manteve a deusa caçadora virgem. Porque então não fez o mesmo com Atená, que assim como Ártemis, também fez um voto de castidade para se manter eternamente virgem? Ou seja, ao seguir a tradição com uma deusa, e no mesmo aspecto, a virgindade, não seguir com outra, Riordan está sendo incoerente com ele mesmo. Mas claro que isso é piolhice de helenista chato. =)

O fato de Atená ter uma filha não prejudica em nada a história de O Ladrão de Raios. Aliás, dentre os protagonistas, Annabeth é minha personagem favorita. Eu só acharia melhor se ela não fizesse tanto o tipo sabichona como a Hermione de Harry Potter, e fosse uma pessoa mais astuta, matreira, malandra mesmo, como era Odisseu. Apesar de Palas Atená ter ficado mais conhecida como a deusa da sabedoria, ela antes disso era retratada como a deusa da astucia e da esperteza (não à toa ela era filha da deusa Métis, que é a própria personificação da astucia (que em grego é μῆτις), e justamente por Odisseu carregar essas características (como já disse neste post sobre a Odisséia, o principal epíteto dele era politropos (πολύτροπος), algo como o “multifacetado” ou “multiastucioso”) que Atená o tinha como o seu herói preferido. E sendo Annabeth, portanto, filha de Atená (agora conhecida no Olimpo como a “ex-virgem de olhos glaucos”), acho que ela seria uma personagem mais legal se tivesse as características do herói predileto de sua mãe.

Agora uma coisa que gostei muito nesse livro foi com relação a ressalva que os personagens possuem em dizer o nome dos deuses e monstros, inclusive o tempo todo alertando o Percy Jackson para que não faça isso (algo que, apesar disso, ele faz várias vezes). Foi a partir desse detalhe, que pra muita gente pode passar batido, que eu percebi que o Rick Riordan realmente manja de cultura antiga, pois ele traz para seus personagens uma característica importante da mentalidade dos homens da antiguidade, que acreditavam que os nomes podiam ser numinosos ou nefastos. Mas hein? Numinosos? Nefastos? Como assim? Ok, eu explico melhor.

Bem, hoje em dia a mentalidade que as pessoas tem é que os nomes são apenas uma representação virtual-imagética das coisas. Ou seja, como diria Saussure, um nome é um signo linguístico, composto de significante e significado. No entanto, na grécia antiga, principalmente no período homérico, a mentalidade era outra. Eles acreditavam que o nome, em especial das divindades, não eram apenas um representação da coisa, mas a própria coisa em si. Então ao pronunciar o nome você estaria evocando a coisa que o nome representa. E portanto, se você dissesse o nome de um deus, não apenas estaria evocando o deus, mas tudo o que ele representa (por isso que nunca se pronunciava em voz alta o nome de Tânatos, por exemplo, pois era como se você estivesse evocando a própria morte).

Essa mentalidade numinosa/nefasta dos nomes foi também passada pra tradição judaico-cristã. Na passagem clássica do evangelho de João (que foi escrito originalmente em grego koiné) podemos ler “kai theos en ho logos” (“καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος”), que costuma ser traduzido para o português como “e o verbo era deus”. Como já expliquei antes neste outro artigo, a palavra logos (λόγος) originalmente possuía no grego antigo o significado de fala ou discurso, e neste aspecto, era usada como sinônimo da palavra mythos (μῦθος). Mas com o tempo, as duas palavras deixaram de ser sinonímias e passaram a pertencer a campos semânticos diferentes, sendo que logos passou a ter também acepção de razão, lógica, estudo (esse último foi o sentido que passou pro português através da sufixação nos nomes de diversas ciências como biologia, arqueologia, sociologia, etc).

Então se o deus judaico-cristão era o próprio logos (a fala, o verbo), ele é capaz de criar coisas apenas pela nomeação dessas coisas (não me espanta que ele tenha criado o mundo em sete dias, assim até eu). E justamente por ser logos, que o nome verdadeiro da divindade não pode ser pronunciado, pois isso a evocaria em toda a sua essência, algo a que nenhum homem poderia resistir. E essa mesma lógica se aplica aos deuses gregos, que é exemplificado no mito de Sêmele, que exigiu a Zeus que o deus aparecesse pra ela em sua verdadeira forma, pra ela ter certeza que se tratava dele. Zeus, por sua vez, atendeu o pedido de sua amada Sêmele, e apareceu a ela em sua verdadeira natureza, como um divino raio, e desta forma acabou fulminando-a.

Podemos ver algo semelhante no penúltimo capítulo de O Ladrão de Raios, quando Percy Jackson derrota Ares, o deus da guerra um momento antes de ir embora, muda para sua verdadeira forma, então Percy vira o rosto de lado para não olhar para a verdadeira natureza de Ares, pois sabia que morreria se fizesse isso.

Com relação a estrutura estilística de O Ladrão de Raios, não curti muito o fato do livro ter narrativa em primeira pessoa (sendo o narrador o próprio Percy), pois esse tipo de narrativa não combina muito em histórias de aventura, causando prejuízo principalmente nas cenas de ação. A narrativa em primeira pessoa combina mais com o gênero policial, pois colabora para o clima de mistério que esse gênero necessita, ou então pra livros com protagonistas mais reflexivos e filosóficos, pois a narrativa em primeira pessoa ajuda a entrar na mente do personagem. Mas para histórias de aventura, como é o caso de O Ladrão de Raios, a narrativa em terceira pessoa é a melhor opção, pois permite mais dinanismo nas descrições das ações dos personagens.

Agora algo que realmente me incomodou em O Ladrão de Raios foi a explicação do porquê dos deuses gregos terem migrados pros EUA. Segundo a história do livro, os deus olimpianos sempre migram para os novos países que se transformam em potência mundiais, e portanto, agora fizeram do EUA a sua nova morada. Achei essa explicação um tanto arrogante e prepotente. Acho que seria uma explicação muito melhor, e mais humilde, se Rick Riordan tivesse usado o mesmo conceito que o Neil Gaiman em seu livro Deuses Americanos (que na verdade é um conceito que o Gaiman “robou” do Terry Pratchett, que já o usava em sua série Discworld). Ou seja, em Deuses Americanos, os antigos deuses migraram junto com as pessoas de seus povos de origem, e passaram a existir também nesses novos países, e continuarão existindo nos lugares enquanto lá houver pessoas que acreditem neles.

Por fim, se você teve saco pra ler até aqui, reitero que gostei muito de O Ladrão de Raios, apesar das minhas ressalvas a certos detalhes apontados neste texto, mas que como já disse, só me incomodaram pois sou um historiador helenista, a maioria dos leitores, e principalmente o público jovem que é o foco do livro, nem vai reparar nessas coisas, e com certeza se divertirá muito com a história.

E o melhor de tudo é que, assim como para mim os livros de Monteiro Lobato como O Minotauro e Os Doze Trabalhos de Hércules serviram como catalizadores para a minha paixão por mitologia e literatura greco-romana, a ponto de eu ter me tornado historiador e graduando em grego antigo, com certeza os livros da série Percy Jackson e os Olimpianos está fazendo o mesmo com toda uma geração de jovens. E só por isso Rick Riordan já merece os meus parabéns. =)

Dados Técnicos

O Ladrão de Raios – Percy Jackson e os Olimpianos
Autor: Rick Riordan
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788598078397
Ano: 2008
Número de páginas: 400
Acabamento: Brochura
Formato: Médio