Odisseu e as Sereias

Algum de vocês já devem estar sabendo que eu estou roteirizando uma adaptação da Odisséia em quadrinhos que será desenhada pelo Laudo. A minha idéia com este texto então é contar um pouco pra vocês de como está sendo o meu processo de adaptação, quais as pincipais dificuldade que estou encontrando, e como estou fazendo para contorná-las. Mas antes disso, cabe uma pequena introdução a Odisséia.

Devido a seus dois grandes épicos, a Iliada e a Odisséia, Homero é considerado o fundadador da literatura ocidental. Todas as histórias contadas dali em diante no Ocidente (e em menor grau no Oriente) possuem uma influência direta ou indireta dessas duas epopéias. Apenas esse fato já demonstra o valor que existe nesta adaptação da Odisséia em quadrinhos que estamos fazendo.

A forma consagrada da Odisséia que chegou até nós é uma poema épico constituido de 24 cantos e cerca de 12 mil versos em hexâmetro dactílico (métrica tradicional da poesia épica na grécia antiga). Ela foi composta provavelmente no século IX a.C. através de uma cultura oral regida pelos aedos, os assim chamados bardos da época, do qual acredita-se que Homero tenha sido um representante. E por muito tempo a Odisséia, assim como a Iliada, foram transmitidas através de várias gerações de forma oral, sendo que primeira versão escrita desses poemas datam apenas do século VI a.C.

A trama principal da Odisséia relata a longa viagem de volta de Odisseu a seu lar na ilha de Ítaca, após os dez anos da guerra de Tróia (Ílion). No entanto, a viagem de retorno de Odisseu não é fácil, e ele enfrenta uma série de desafios e adversários pelo caminho, cujos mais célebere são; o ciclope Polifemo, o qual é cegado por Odisseu, que atrai deste modo a ira do deus dos mares Poseidon, pai do ciclope; a feiticeira Circe, que transforma alguns do homens de Odisseu em porcos; e as sedutoras sereias que encantam os marinheiros e os afogam no oceano.

Estou tentando escrever um roteiro que respeite o máximo possível a Odisséia, no entanto, não se trata de uma adaptação fiel. E nem teria como, afinal, estamos falando de duas linguagens artísticas totalmente diferentes. Se apenas a tradução de um texto de uma língua para outra já pode ser considerada uma “traição”, imagine então adaptar uma história no formato de poesia épica em grego antigo para o formato de história em quadrinhos em português? Como o que eu estou fazendo é uma adaptação em quadrinhos, então obviamente adaptações devem ser feitas para que a história funcione nessa linguagem.

E a primeira dessas adaptações se refere ao tamanho da história. Infelizmente a editora limitou essa adaptação a apenas 96 páginas, então será impossível transportar toda a trama da Odisséia para essa versão em quadrinhos (para isso, precisaria de no mínimo umas 300 páginas), por isso o roteiro irá se ater apenas a trama principal da viagem de retorno do Odisseu e deixará as diversas tramas paralelas de lado, no máximo citando elas rapidamente quando possível.

Outro elemento que precisará ser adaptado a linguagem dos quadrinhos é o diálogo. Na poesia épica os diálogos costumam ser bem extensos, e com muitos monólogos. Esse formato não funciona bem nos quadrinhos, pois torna a leitura maçante e cansativa, poluindo os quadros com muitos textos que sobrepõe as imagens. Por isso, estou tendo que reduzir os diálogos, tornando-os mais dinâmicos, e suprimindo quase que por completo os monólogos e narrações, pois muito deles podem ter seu conteúdos mostrado através das imagens, o que os torna redundantes (lembremos que quadrinhos é antes de tudo uma história contada por imagens, então se o desenho já mostra, o texto deve ser suprimido).

Outro detalhe é que estou mantendo os nomes dos personagens nas suas versões em grego ao invés das versões latinas, como por exemplo Odisseu (que na versão latina é Ulisses). Apesar dos nomes latinos serem mais conhecidos e populares, essa decissão foi tomada pelo seguinte motivo; ao manter os nomes gregos é possível também manter algumas das rimas e jogos de palavras, assim como os epítetos tradicionais, emulando desta forma a sonoridade e ritmo que o poema original possui, o que agrega maior valor literário a essa adaptação.

Outro artifício que será usado para remeter ao leitor a musicalidade da Odisséia é a história iniciando com um aedo (no caso o próprio Homero) cantando a Odisséia na ágora (praça pública) de uma cidade para o público grego do sec. IX, e depois desta cena, entrar na história da Odisséia propriamente dita. Essa cena inicial mostrando Homero recitando a Odisséia na sua forma original (ou seja, o texto estará em grego antigo mesmo) servirá como um requadro literário que fará o leitor adentrar no ambiente em que o poema épico era cantado na grécia antiga, fazendo-o sentir-se como se estive lá naquela época, junto dos outros na ágora ouvindo a bela canção do aedo entoando os versos da Odisséia. Este requadro é também uma forma de dar mais valor educacional a essa adaptação, pois mostrará para o leitor o contexto histórico no qual a Odisséia foi criada e desenvolvida.

Por fim, essa adaptação da Odisséia em quadrinhos não possui a pretensão de substituir a leitura do poema original (e se possível, na lingua original), mas tem como objetivo agradar tanto os leitores que nunca tiveram contato com a poesia homérica quanto os estudiosos e profundos conhecedores da literatura grega. Agora só resta saber se eu conseguirei cumprir esse objetivo. =)