Poster de Percy Jackson e o Ladrão de Raios

Fui assistir o filme de O Ladrão de Raios, adaptação cinematográfica do primeiro livro da série Percy Jackson e os Olimpianos, já sabendo que haviam sido feita várias modificações com relação a história apresentada no livro escrito por Rick Riordan. E vi que essas modificações causaram descontentamento na grande maioria dos fãs de Percy Jackson.

Eu, por outro lado, não vi muitos problemas na maioria das modificações, com exceção de uma única que achei muito ruim, e explicarei o porquê mais adiante. É de se esperar que na transposição de um livro pro cinema modificações aconteçam para melhor adequar a história a nova mídia. Adaptar é isso. Por mais fiel que um filme seja ao livro, não há como manter a história exatamente igual. Se modificações são inevitáveis, então elas devem ser precisas e bem feitas. Um bom exemplo disso é adaptação da trilogia de O Senhos dos Anéis por Peter Jackson. Ele fez várias modificações na sequência narrativa da história, dando mais ênfase a certas passagens e diminuindo outras, assim como fundiu certos personagens e sumiu completamente com outros (alguém aí realmente sentiu falta do Tom Bombadil no filme? Eu não!). E o mesmo foi feito nesta adaptação de O Ladrão de Raios dirigida por Chris Columbus (e antes de continuarmos com essa análise, fica aqui o aviso que ela contém spoilers tanto do livro quanto do filme).

Já no começo do filme vemos Poseidon discutindo com Zeus a respeito do mote que dá nome a história, o roubo do raio mestre do senhor do Olimpo. Também já ficamos sabendo logo de cara de um mistério que no livro só será revelado bem depois, que Poseidon é na verdade o pai de Percy Jackson. Outra grande modificação com relação ao livro nos é mostrada assim que vemos o protagonista pela primeira vez. No filme, Percy Jackson já é um adolescente (no livro ele tem apenas 12 anos) e já está no colegial (ou “high school” sem o “musical”, numa excelente tirada de Grover).

Percy Jackson e a Medusa

Aliás, toda essa sequência inicial, que no livro ocupa uns cinco capítulos, no filme é bem mais acelerada, contada de forma mais enxuta. Se por um lado isso dá mais dinamismo a trama (o que de fato é necessário pra um filme de cerca de duas horas), por outro lado perde-se no desenvolvimento dos personagens e na cadência narrativa. Um exemplo disso é que devido a aceleração da narrativa no filme, a reação de Percy Jackson ao descobrir que é um semideus e que os deuses e outras figuras míticas helênicas de fato existem, é feito de forma anti-natural, quase não existe assombro ou surpresa por parte dele (“Ah, então eu sou um semi-deus filho de Poseidon? Legal, e quando eu começo a chutar a bunda dos monstros?”). Enquanto no livro, que possui uma narrativa mais lenta, esse choque do protagonista diante dessas revelações é feito de modo mas cadenciado e progressivo, o que traz maior verossimilhança a trama e ao personagem.

Mas o que sofreu mais modificações no filme com relação ao livro foi a sequência da missão de Percy em busca do raio mestre de Zeus, acompanhado por Annabeth e Grove. A jornada deles pelo EUA, da costa leste até a costa oeste, onde fica a entrada pro Hades, foi bem simplificada no filme, com algumas sequência sendo retiradas (assim como personagens), e novas sequências sendo criadas, principalmente para dar mais ênfase a ação, como é o caso da inclusão da Hidra de Lerna, que no livro não existe. Essa alterações, como eu já disse, são justificadas, pois dá mais dinamismo ao filme, que possui menos “espaço” do que o livro pra desenvolver a história.

Agora uma mudança que é injustificável foi ter transformado Hades em vilão. Apesar da história do livro insinuar que Hades seja o vilão, acabamos descobrindo no final que ele tinha sido ludibriado pelos verdadeiros antagonistas, junto com seus irmãos Zeus e Poseidon. Desta forma, Rick Riordan evitou um dos maiores clichês das histórias feitas no EUA que se utilizam da mitologia grega, que é transformar Hades em vilão simplesmente porque ele é o senhor do mundo dos mortos. E esse que foi o grande trunfo de Riordan no livro, foi desfeito no filme, o que pra mim foi uma grande cagada. Maldita mania dos norte-americanos de acharem que o Hades é o Diabo e o seu reino é o Inferno. Como enfatizei na resenha do livro, essa comparação é uma grande besteira e está completamente errada.

Percy Jackson, Annabeth e Grove contra a Hidra

Pior que isso só mesmo a motivação apresentada por Hades pra querer o raio mestre de Zeus; pra poder conquistar o Olimpo. Isso ficou completamente descaracterizado com o Hades retratado na mitllogia e na literatura clássica (e até mesmo com a versão de Hades de Rick Riordan). O Hades nunca iria ambicionar o Olimpo, simplesmente porque ele já é o senhor do maior dos reinos quando houve a divisão do mundo com seus irmão Zeus e Poseidon. O reino dos mortos é muito maior do que o céu, a terra e o mar juntos. Hades simplesmente reina sobre todos que um dia já viveram, e isso inclui heróis, e até mesmo Titãs. Ou seja, não é pouca coisa. Não é à toa que um dos epítetos de Hades seja “pluto”, o rico.

Além disso, Hade é sempre retratado na tradição clássica como um deus “na dele”. Ele raramente sai de seu mundo e vai para o mundo superior, e na verdade, pouco se importa com o que acontece lá em cima. Uma das poucas vezes que ele saiu do Hades foi pra raptar sua esposa Perséfone.

E aqui vem outra coisa que me desagradou no filme, a retratação de Perséfone como uma biscate que dá pra qualquer um que desce até o seu palácio. A Perséfone da tradição é oposto disso, e sempre foi retratada como uma esposa fiel ao Hades. Aliás, no filme, Perséfone argumenta que Hades é cruel e a levou pro Hades a força. De fato, a tradição diz que Hades raptou Perséfone, mas não foi a força, mas sim com consentimento dela. Algo assim pode parecer estranho para nós, “como alguém consente em ser raptada?”, você deve estar pensando. Mas como já expliquei neste outro artigo, muito mitos são representações de costumes que de fato existiam. E não só na grécia, mas entre vários povos antigos era comum o homem raptar uma mulher e tomá-la como esposa com o consentimento dela. Isso era feito por vários motivos, seja para não pagar o dote, seja porque os pais ou a família de modo geral não concordava com a união do casal, etc. E Hades rapta Perséfone porque a mãe dela, Deméter, não concordava com a união dos dois.

Aliás, essa era uma tradição tão forte, que ainda hoje a representamos através de um rito no casamento, e que poucos se dão conta de sua origem greco-romana (aliás, não só no casamento, mas muitas liturgias cristãs são na verdade de origem pagã). Quando o noivo carrega a noiva na noite de núpcias para dentro do quarto, o que ele está fazendo ali é justamente reencenar, através de um rito, o mito do rapto da noiva. Aliás, esse rapto da mulher amada retratado nos mitos gregos, não era apenas realizada pelos deuses, mas também por heróis, cujo exemplo mais clássico é o rapto de Helena por Páris, que vai culminar na guerra de tróia (e novamente lembrando que Helena, assim como Perséfone, foi raptada com consentimento).

Percy Jackson e o tridente de Poseidon

Pois bem, se não fosse esse fato do Hades ter sido transformado num vilão cruel e Perséfone numa cadela no cio, o filme de O Ladrão de Raios teria sido muito melhor. Até mesmo porque eu curti muito o visual roqueiro-metaleiro que o Hades tem no filme. Outra coisa que curti muito foi terem transformado o Grover no alívio cômico. Seu personagem é dono das melhores tiradas, e me fez rir bastante durante o filme.

Por fim, apesar da tentativa do marketing de O Ladrão de Raios de assemelhá-lo aos filmes de Harry Potter, o que fica evidente nos cartazes do filme no qual podemos ler em letras garrafais “Do mesmo diretor de Harry Potter e a Pedra Filosofal”, não creio que Percy Jackson será um sucesso de bilheteria como foi os filmes do bruxinho. Mas de todo modo, vamos aguardar pra ver qual será a bilheteria de O Ladrão de Raios. Pelo que pude perceber até agora, o filme tem agradado muito mais as pessoas que não leram o livro do que as que leram. Eu mesmo continuo preferindo o livro.