Busto de SócratesPouco sabemos sobre o Sócrates histórico. Isso se deve ao fato de que ele não deixou nenhuma obra escrita. Tudo o que sabemos sobre Sócrates se baseia nas informações de obras escritas por terceiros, seja lhe retratando de forma elogiosa e entusiasmada, como acontece nas obras de seus discípulos Platão e Xenofonte, seja lhe retratando de forma caricatural e debochada, como acontece na comédia As Nuvens de Aristófanes.

Nesse aspecto, Sócrates se torna para nós uma figura tão misteriosa quanto Jesus, por exemplo. O que temos de ambos são os personagens construídos por terceiros, e não os homens históricos. Como ressalta o historiador Alfred Edward Taylor, a biografia de Sócrates não pode ser o mero registro de fatos, mesmo quando eles são abundantes. O único modo de penetrar no caráter e no propósito que Sócrates possuía é através de um esforço de imaginação construtiva, pois fatos indiscutíveis a respeito dele são extremamente raros.

Um desses fatos que podemos ter como certo é que Sócrates foi julgado e condenado a morte em Atenas, no ano de 399 a.C., sob a acusação de impiedade e por corromper a juventude, como podemos ler na Apologia de Sócrates, de autoria de Platão. Mas em que medida o texto apresentado por Platão é um testemunho fidedigno do julgamento de Sócrates? De certo, a Apologia não se pretende ser um documento histórico. Ela se mostra mais como uma defesa da “memória” de Sócrates. A Apologia é escrita por Platão com o claro intuito de separar a prática filosófica de Sócrates da prática dos sofistas. Deste modo, a representação do julgamento de Sócrates por Platão é muito mais uma reconstrução daquilo que é provável, no mesmo sentido em que Tucídides reconstrói diversos discursos em sua História da Guerra do Peloponeso, como é o caso do famoso discurso fúnebre de Péricles, do que a representação fiel do que de fato aconteceu e foi dito.

A Apologia pertence aos primeiros diálogos de Platão. Esses diálogos são chamados em geral de “diálogos socráticos”, pois têm Sócrates como personagem principal. Eles evidenciam mais claramente a prática e as idéias de Sócrates, um pensador essencialmente moral e ético. Esses primeiros diálogos são também chamados de “aporéticos”, pois fazem o levantamento de diversas questões, mas terminam com essas questões em abertas, inconclusas. Nos diálogos da segunda fase, no qual podemos incluir A República, Sócrates permanece como personagem principal, mas suas idéias já não estão tão claras assim, e estão mescladas aos pensamentos do próprio Platão. E por fim temos os diálogos da terceira fase, como Crítias, em que o platonismo avançou para além das concepções socráticas, os pensamentos próprios de Platão ganham contornos mais nítidos e independentes dos pensamentos de Sócrates que os inspiraram.

A Escola de Atenas - Afresco de Rafael

A acusação a Sócrates que levou a sua condenação e morte foi feita por Meleto, um jovem poeta, como podemos ver no diálogo Eutífron. Nesse diálogo Sócrates se encontra com Eutífron, um advinho, no Pórtico do Rei. Sócrates está lá justamente para tomar conhecimento da acusação de Meleto efetuada contra ele. Interrogado por Eutífron por qual motivo Meleto o acusa de corromper os jovens, Sócrates responde: “Ah!, meu caro amigo, soa estranho para quem o ouve pela primeira vez. Porque afirma que sou um criador de deuses, acrescentado que invento novos deuses e que não acredito nos antigos”. E Eutífron responde a Sócrates: “Entendo, Sócrates, e acredito que ele esteja se referindo a esse daimon que tu dizes ouvir a todo momento. Ele deduz daí que promoves inovações no que diz respeito ao divino, de onde se origina sua acusação”. Esse daemon (δαίμων) de Sócrates, o qual se refere Eutífron, seria um nume, um tipo de divindade que aconselha Sócrates e refreia certas ações dele. É através da voz divina do daemon, por exemplo, que Sócrates escolhia as pessoas o qual iria “examinar” usando sua prática filosófica.

Na Apologia, tomamos conhecimento que Sócrates não foi acusado só por Meleto, mas também por Ânito, um influente orador e estratego (στρατηγός), e por Lícon, figura de menor importância do qual pouco sabemos. Ânito é certamente o mais importante dos acusadores, e provavelmente partiu dele a idéia dessa ação contra Sócrates, tendo usado os outros dois acusadores como subordinados de seus interesses. Fica claro através da Apologia que não foi por questões religiosa que Sócrates recebeu a condenação, como dá a entender pelas acusações, mas sim por questões políticas. Para Ânito, era justamente a prática filosófica e os ensinamentos de Sócrates que o tornavam um homem perigoso politicamente, a ponto de quererem seu exílio de Atenas, ou mesmo a sua morte. Mas que prática filosófica era essa de Sócrates? O que tinha a ensinar um homem que alegava nada saber?

Na Apologia, Sócrates diz que seu amigo Querofonte perguntou ao oráculo de Delfos se existia alguém mais sábio do que ele. Em resposta a pitonisa disse que não existia ninguém. Sócrates então ficou intrigado com aquela resposta, pois não se considerava de forma alguma sábio, quanto mais o mais sábio dos homens. Acreditando que o oráculo não podia mentir, pois era a voz do deus, no caso, o deus de Delfos, Apolo, Sócrates iniciou uma investigação a cerca dos dizeres do oráculo, e passou a dialogar com aqueles que tinham reputação de sábios. Em sua investigação, Sócrates percebeu que aqueles que se julgavam sábio, na verdade não eram, e que os conhecimentos deles eram inconsistentes. Sócrates então se deu conta de que de fato era mais sábio do que aqueles que se julgavam sábios, mas não por conhecer mais do que eles, e sim por ter consciência de sua própria ignorância, e não dizer como eles que sabe, quando de fato não sabe.

Sócrates passou a acreditar então que uma missão havia lhe sido conferida pelo deus de Delfos, a de examinar e interrogar as pessoas para que percebessem a fragilidade de seus argumentos e obscuridade de seus conhecimentos. Segundo o próprio Sócrates conta em seu julgamento: “…de acordo com a vontade do deus, não deixei de examinar os meus concidadãos e os estrangeiros que considero sábios e, se me parecem que não o são, vou em auxílio do deus revelando-lhes sua ignorância”. Sócrates fez do aforismo escrito no oráculo de Delfos, “conhece-te a ti mesmo” (“γνῶθι σεαυτόν”) a base de sua própria vida. E essa seria a partir dali sua única atividade, como ele mesmo diz na Apologia: “Não tenho outra ocupação senão a de vos persuadir a todos, tanto velhos como novos, de que cuideis menos de vossos corpos e de vossos bens do que da perfeição de vossas almas…”. Essa se torna a principal defesa de Sócrates no julgamento contra a acusação de impiedade. Afinal, se a única coisa que ele faz é seguir as ordens do deus de Delfos, ele não pode ser ímpio como afirma seus acusadores.

A Morte de Sócrates - Jacques-Louis David

Essa prática que Sócrates assumiu a serviço do deus de inquirir e examinar as pessoas que se julgam na posse de “verdades”, refutando os argumentos delas para que percebam sua ignorância, é chamada de elenkhos (έλενχος). Um elemento importante no elenkhos é o que se convencionou chamar de “ironia socrática”. É uma ironia complexa, “o que é dito é e não é significado”, como ressalta Gregory Vlastos. A ironia seria então aquele momento do diálogo em que Sócrates força o interlocutor a expor as suas crenças ao afirma e reafirma que nada sabe, apesar de por vezes saber mais do que seu interlocutor. E é através dessa ironia que Sócrates consegue fazer o interlocutor se perder nos corredores obscuros do labirinto que ele tinha por conhecimento, fazendo-o reconhecer sua própria ignorância. A partir disso, o interlocutor está pronto para, assim como Sócrates, conhecer a si mesmo. Então começa a fase do diálogo que é chamada de maiêutica, em que Sócrates ajuda o seu interlocutor a parir suas próprias idéias, não mais impregnadas por chavões herdados e que são vazios de sentido, mas amparadas pela verdade de sua própria alma.

Esse método, no entanto, só tem eficácia com as pessoas que aceitarem dialogar com Sócrates de forma “amigável”, e que estejam dispostas a exprimirem suas reais crenças, assim como abandoná-las diante da refutação, para então poderem reconstruir seus conhecimentos. Algo assim já não é tão fácil de acontecer com um interlocutor “rebelde”, por melhor que fosse a persuasão e a eloquência de Sócrates.

É interessante notar que em sua defesa descrita na Apologia, em nenhum momento Sócrates apela para a bajulação dos juízes. Como ele mesmo diz: “Parece-me não ser justo rogar ao juiz e fazer-se absolver por meio de súplica; é preciso esclarecê-lo”. Percebemos então que a próprio discurso de Sócrates no julgamento é uma comprovação de sua prática filosófica cotidiana, atribuída a ele pelo deus de Delfos. E a prática de Sócrates é a base que ele usa como prova de que seu argumento é verdadeiro. Se consideramos a concepção posterior de retórica de Aristóteles, em que o ethos (ἦθος) se compõe no logos (λόγος) e pelo logos, o efeito do discurso de Sócrates é de um ethos que se projeta antes do discurso.

No entanto, essa defesa não foi suficiente para absolver Sócrates. Segundo suas palavras na Apologia: “Não foi por falta de discursos que fui condenado, mas por falta de audácia e porque não quis que ouvísseis o que para vós teria sido mais agradável, (…) fazendo e dizendo uma porção de coisas que considero indignas…”. E assim Atenas condenava a morte aquele que talvez tivesse sido seu melhor cidadão. Um homem que defendia a tese de que virtude (aretê, ἀρετή) é conhecimento (episteme, ἐπιστήμη), e portanto, ninguém erra ou é injusto deliberadamente, mas porque desconhece o justo. Mas a virtude é um conhecimento que não pode ser ensinado, é o conhecimento de si mesmo, que deve ser construído por si próprio, a partir de sua própria alma. E porque não traiu sua alma, Sócrates preferiu a morte a continuar vivendo, pois não havia sentido em viver outra vida que não fosse aquela lhe atribuída pelo deus de Delfos. Sócrates então despede-se na Apologia de forma serena de seus concidadãos: “Mas eis a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo, ninguém o sabe, exceto o deus”.