Hércules contra o Leão da Neméia

Alguém que possui um conhecimento básico de mitologia grega certamente dirá que Hércules nada mais é do que o nome romano do herói grego Heracles. No entanto, Hércules não é exatamente Heracles. Não se trata do mesmo personagem. “Hã? Mas como não?” – é o que perguntaria, ainda surpreso por esta revelação, o aluno do fundo da sala fã de .

Mas antes de responder a essa pergunta, vejamos o que diz Georges E. Zacharakis em seu livro Mitologia Grega – Genealogias das Suas Dinastias sobre o mito na Grécia:

“(…) desde sua criação, o mito na Grécia percorreu através do tempo um longo caminho para chegar à forma que conhecemos hoje. Costuma-se dizer que o mito não se refere a tempo e nem a espaço. A expressão não corresponde à realidade. O mito foi criado num tempo e espaço determinados e em condições específicas. Do mito inicial nasceram outros; e destes mais outros que foram reproduzidos, reformados, modificados, completados e alterados. Estes foram apresentados diferentes ou novos, adaptados às condições de tempo e espaço.” (ZACHARAKIS, 1995, p. 41)

Os mitos, portanto, são historicamente constituídos, e expressam a mentalidade e o conjunto de valores de um povo em uma determinada época. E quando há alguma alteração desses valores, ou uma mudança no regime político-social, essas mudanças são em geral captadas pelos mitos, que se modificam para se adaptar a nova realidade daquele povo.

Ainda que os romanos tenham sido altamente influenciados culturalmente pelos helenos, não se trata da mesma cultura. Os romanos adaptaram os mitos gregos aos seus próprios valores e a sua própria realidade sócio-política. Assim, o Hércules romano não é o mesmo Heracles grego, pois ele sofreu inúmeras transformações em seu mito durante a transposição de uma sociedade para outra.

Segundo Zacharakis (1995, p. 77), “o nome Heracles, em grego significa ‘Hera-Cleos’, glória de Hera, isto é, aquele que luta pela glória da deusa Hera; o companheiro, o amigo, o defensor, o apóstolo da deusa, o sarcedote do seu culto”. No entanto, nas narrativas dos doze de trabalhos vemos que Heracles não luta em nenhum momento pela glória de Hera, muito pelo contrário, a esposa ciumenta de Zeus é a grande antagonista dele. “Mas como pode isso?” – pergunta o aluno sentado do lado da janela e que não perde um episódio do seriado do Hércules e da .

Essa aparente contradição existe porque, como já foi dito, os mitos são modificados à medida que são reproduzidos. E o Heracles sofreu diversas modificações em seu mito já na própria Grécia, antes da chegada dos romanos. Podemos identificar ao menos dois Heracles nos mitos gregos. Um tebano, que também era chamado de Alciedes. Esse é o Heracles dos doze trabalhos, e que se tornou mais conhecido. E outro cretense, de origem bem mais antiga. Esse é o Heracles protetor de Hera, e que participou dos Argonautas liderados por Jasão, como é narrado por Apolônio de Rhodes na Argonáutica.

Não só Heracles, mas a mitologia grega como um todo tem a sua origem na ilha de Creta e na civilização minóica, que dominou a região da Grécia antes da chegada da tribo dos aqueus, de origem indo-eropéia, que desceram do norte ao mesmo tempo em que outros grupos de mesma etnia migravam para as regiões do norte da Índia, da Ásia Menor, e nos arredores do Golfo Pérsico por volta de 2000 a.C. Essa civilização era chamada de minóica em referência a Minos, um lendário rei cretense, mas que muitos historiadores acreditam ser também o nome de título de rei em Creta (assim como César se tornou título de imperador em Roma). Diferente dos aqueus, os cretences possuíam um sistema sócio-politico matriarcal, ou seja, a mulher é quem era a chefe da tribo, e por extensão do Estado. Era a mulher que dominava os assuntos religiosos, políticos e sociais, exercendo funções de liderança e com total independência em relação aos homens, que ocupavam uma posição inferior na sociedade. Vejamos porque, segundo Zacharakis, a sociedade minóica se constitui dessa maneira:

“A formação em sociedade foi a primeira necessidade do homem primitivo. E, ainda, o homem observou que em seu ambiente limitado existia a mulher que possuía o poder da reprodução, a força de produzir vida, semelhante àquela da terra, com a influência da lua. A mulher gerava filhos e seu período ginecológico era de 28 dias, em número igual ao ciclo das fases da lua; como também foi notado que as fases da vida da mulher correspondiam àquela da lua: moça-virgem (lua nova), mulher-madura (lua cheia) e anciã (lua velha). Esta semelhança impõe ao homem a consideração e o respeito à mulher elevando-a a uma posição superior e mais próximo ao divino. E em conseqüência de ser a mulher mais e mais constante no ambiente da convivência, foi atribuído a ela o poder de chefia do ambiente e da sociedade. Desde então a mulher ganhou posição prestigiada e foi considerada a chefe da comunidade. (…)” (ZACHARAKIS, 1995, p. 20)

Se a religião é um espelho de sua sociedade, não por acaso o grande deus dos cretentese é na verdade uma deusa; Deméter (dan-mater, que significa terra-mãe), também conhecida simplesmente por “a Deusa”. Ela era uma deusa tríade, ou seja, era formada por três diferente representações que estavam associadas a fase da lua, que por sua vez, estavam associadas as diferentes fases da mulher. Então a Deusa na sua fase de virgindade era representada por Athena, em sua fase de maturidade por Afrodite, e em sua fase de anciã por Hera.

Nesta teogonia minóica, Zeus é um deus menor, companheiro da Deusa-Terra, e o elemento fecundador representado pela chuva. O nome dele provém da palavra zauxis que significa jungir ou unir. A exemplo das estações do ano e dos ciclos de chuva, Zeus deveria nascer todos os anos para a fecundação da Deusa-Terra, morrendo logo depois, assim como o zangão que morre logo após fecundar a abelha rainha. Esse mito era representado na sociedade minóica através do ritual de sacrifício.

Todo ano, a rainha, representante da Deusa, deveria escolher um jovem rei como amante (que seria o representante de Zeus), e ele era sacrificado quando o ano tivesse terminado. Com o sangue do rei eram pulverizados os campos cultivados e as lavouras, e isso, acreditavam, iria garantir produtividade e uma boa colheita. A carne do rei era comida pela rainha-chefe e suas sacerdotisas. Logo após este ritual, outro jovem rei era escolhido como novo amante pela rainha, para também morrer no ano seguinte em favor de uma boa colheita. Podemos dizer que ser rei em Creta era uma “carreira” que possuía uma “aposentadoria” bem precoce.

Mas com o tempo, o “plano de carreia” de rei em Creta ganhou algumas melhorias. O rei deixou de ser um “simples fecundador” e gradativamente passou a tomar parte dos serviços executivos e seu tempo de vida passou a ser mais prolongado antes de seu sacrifico. Até que no período da chegada dos aqueus, o sacrifico humano foi substituído pelo sacrifício animal (graças as Zeus!). E com essas transformações na sociedade minóica, as sarcedotisas foram substituídas por sacerdotes, e provavelmente é aqui que temos a origem de Heracles, pois segundo o mito cretense, ele teria sido um dos primeiros sacerdotes da Deusa mãe junto com Jasão, Idas, Epimedes e Peonéo. Com o gradativo domínio dos aqueus e o enfraquecimento do domínio minóico, o sistema político-social, de matriarcal passou a ser patriarcal. Assim, com o homem no poder, Zeus passa a ser o supremo-chefe do Olimpo, e para a poderosa Hera do passado, resta-lhe o papel de esposa e companheira fiel (esta, no entanto, era uma palavra que Zeus desconhecia).

Quanto a Heracles, que iniciou sua ação como sacerdote de Hera na ilha de Creta, estendeu seus domínios para outras regiões conforme progredia o avanço da nova civilização micênica que se formou após a minóica. A principio, seus feitos estavam concentrados na região próxima a Tebas (como podemos verificar pelos seis primeiros trabalhos), mas com o crescimento de sua popularidade, todos os povos desejavam se identificar com a imagem do herói, e cada um deles dava um jeito de criar um mito (ou modificar um outro) para provar que suas raízes e descendência tinha origem em Heracles. Por isso, os inúmeros feitos e proezas de Heracles não tinham uma seqüência lógica (ainda que dentro da lógica temporal do próprio mito, e não histórica).

Assim, apesar dos esforços, os mitólogos, poetas e dramaturgos não conseguiram colocar os mitos de Hércules numa ordem hierárquica coerente, e seu mitos surgem sob várias formas, de acordo com a época, a região, e a subjetividade dos artistas. Pois, como já foi dito, o mito não é estático, mas sim uma matéria em eterna mutação, que se mantém viva através da História, mesmo além de seus povos de origem. E eu, através de Nova Hélade, dou minha pequena contribuição pra essa vivacidade da mitologia grega.