Vaso Grego

Através dos arcos de histórias de Nova Hélade, serão abordados nas tramas diversos conceitos e idéias de vários pensadores gregos da antiguidade. Pretendo então escrever uma série de textos abordando esses pensadores cujas as idéias inspiraram Nova Hélade. E para começar, vou falar sobre Isócrates, um pensador que foi de fundamental importância na construção da educação formal na grécia antiga.

Isócrates nasceu em 436 a.C, na cidade de Atenas. Ele foi discípulo de , Pródico e Górgias. Tinha como principal adversário político, , pois este combatia em seus discursos na assembléia Ateniense os avanços do império de Felipe da Macedônia, enquanto Isócrates via em Felipe um líder apto a executar uma união pan-helênica para combater os inimigos “bárbaros”, em especial, os Persas.

Isócrates foi contemporâneo de , e era de certa maneira tão moralista em seu discurso quanto ele. No entanto, no campo da política, Isócrates possuía uma acepção mais “realista” que Platão, pois via a política como um saber prático. Mas se havia algo em que ambos concordavam, era na crítica que eles faziam aos Sofistas.

E é justamente essa crítica que vemos Isócrates fazer em Contra os Sofistas, escrito em 390 a.C (acredita-se que esse esse texto deveria ser originalmente mais extenso, pois ele termina abruptamente). Não se sabe exatamente qual a finalidade dos textos de Isócrates, mas supõem-se que este texto específico seja um manifesto em forma de panfleto, escrito para divulgar a recém inaugurada escola de Isócrates e sua paidéia, seu método de educação. E como um bom retórico, Isócrates sabia que não havia melhor maneira de chamar atenção para seu discurso do que começar atacando.

Basicamente o entendimento que Isócrates tinha de filosofia, e dos filósofos, se dava em oposição a concepção dele dos sofistas. E a principal crítica que ele faz ao sofistas é o fato deles cobrarem para ensinar a temperança (sophrosyne) e a justiça (dikaiosyne). Para Isócrates, não havia nenhuma arte (técne) capaz de incutir estes valores naqueles que não fossem naturalmente inclinados para a virtude (areté). No entanto, o estudo e o exercício do discurso poderia engrandecer esses valores nos homens.

A organização do discurso de Isócrates em “Contra os Sofistas” se dá da seguinte maneira. Primeiro, ele começa criticando os erísticos, que podem ser entendidos como todos aqueles que se utilizam da técnica retórica para vencerem uma discussão e calarem os adversário, e que segundo Isócrates, fingem procurar a verdade mas em seus ensinamentos apenas proferem mentiras.

Em segundo, Isócrates censura os “mestres da retórica” que prometem ensinar os discursos políticos. Isócrates os critica por não se preocuparem realmente com a verdade, e vale ressaltar aqui que para ele, no campo da política só há opinião (doxa), sendo a verdade inacessível ao Homem. Ele os critica também por se comportarem de modo estúpido não servindo deste modo como exemplo para seus discípulos. A censura de Isócrates também aborda o fato destes “mestres” não se importarem com a experiência e a natureza de seus discípulos, acreditando eles que basta ensinar uma série de fórmulas prontas para transformarem seus discípulos em excelentes oradores. Isócrates ainda se ressente pelo fato de que as “bobagens” proferidas por estes “mestres” acabam difamando todos aqueles envolvidos com a ocupação da retórica, o que inclui ele mesmo.

Em seguida no seu discurso, Isócrates finalmente irá expor os princípios de seu pensamentos (apesar de já ter evidenciado alguns deles em suas críticas aos erísticos e aos “mestres”). Para Isócrates o poder do discurso surge nos homens de “ótima natureza” e “treinados na experiência”. Por sua vez, a educação teria a função unicamente de tornar estes homens mais hábeis tecnicamente e mais preparados para a investigação, pois assim tornam-se capazes de assimilar prontamente aquilo que encontrariam por acaso.

No que diz respeito a relação entre o discípulo e seu mestre, este deve ser capaz de explicar seus ensinamentos detalhadamente e também apresentar a si mesmo como um modelo a ser seguido, ao passo que aquele, além de ter o dom natural, deve imitar o seu mestre e exercitar o seu discurso através da prática. Isócrates ainda ressalta que o belo discurso é aquele que é oportuno, conveniente e novo.

Por fim, em seu discurso Isócrates ainda faz mais uma crítica, dessa vez voltado aos antigos autores de manuais de retórica, que teriam na figura de Córax de Siracusa o seu pioneiro. Esses autores prometiam ensinar através de seus manuais como discursar nos tribunais, através do uso, segundo Isócrates, de expressões deploráveis que deveriam ser ditas pelos “invejosos” e não pelos defensores dessa educação. Isócrates ainda os considera piores do que os erísticos, umas vez que estes ao menos prometiam a virtude e a temperança, enquanto aqueles ao incitarem as pessoas ao discurso político, negligenciavam de outros bens e se colocavam como professores de intriga e ganância.

Pois bem, o que podemos concluir a partir dos argumentos apresentados por Isócrates em “Contra os Sofistas” é que ele entendia a filosofia por um sentido mais genérico do “gosto pelo saber”. Para Isócrates, a filosofia ajudava as pessoas a entenderem os problemas éticos e políticos mais claramente, e aliada a retórica, permitia com que elas expressassem suas opiniões diante desses problemas com um zelo maior pelo discurso, que por sua vez, também as auxiliariam na prática. E no entanto, sempre frisando que a justiça não poderia ser ensinada a nenhum Homem por nenhuma arte, ao contrário do que prometia os sofistas.