
“A Ilíada, escrita por Homero…” Li e ouvi bastante isso na época em que lançaram o filme Troia (de 2004, com Brad Pitt no papel de Aquiles) e está começando a acontecer de novo com a proximidade do lançamento da adaptação cinematográfica da Odisseia, dirigida por Christopher Nolan. Mas provavelmente Homero não escreveu a Ilíada, a Odisseia ou qualquer outro poema épico atribuído a ele. Talvez Homero não tenha nem existido.
O que sabemos desde os estudos iniciados por Milman Parry (e seguidos por Albert Lord), que, por sua vez, têm como base as teorias analíticas a partir de Friedrich August Wolf, é que a Ilíada e a Odisseia não são criação de um único autor chamado Homero, mas sim de vários aedos (como eram chamados os “bardos” da Grécia antiga) de forma coletiva, numa tradição oral, perpassando várias gerações.
Isso significa que não havia apenas uma versão desses poemas épicos, mas inúmeras, pois dentro desse esquema de criação coletiva e oral, variações regionais dada por algum aedo aconteciam o tempo todo, já que a estrutura modular do poema permitia improvisos, que eram então incorporados por outros aedos.
O que nos leva, aliás, ao conceito de “autoria” entre os aedos do período homérico (XII a.C.–VIII a.C.). Além dessa questão complexas de saber quem exatamente fez o que em cada parte dos poemas, dentro da perspectiva religiosa desses aedos, a criação vinha da divindade.
Não por acaso, o poema épico sempre começa com a invocação divina, como na Ilíada “A ira, canta, ó deusa, do peleio Aquiles…” (“μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος“), ou ainda na Odisseia “O homem, reconta-me, ó musa, o multifacetado, que tantos males padeceu” (“ἄνδρα μοι ἔννεπε, μοῦσα, πολύτροπον, ὃς μάλα πολλὰ”).
O aedo, portanto, só é “autor” sob inspiração divina. O conceito de autor só vai ficando mais “mundano” lá pelo Séc. III a.C., durante o período helenístico (IV a.C.–I a.C.), quando começa surgir poemas épicos criados já de forma escrita por uma única pessoa, como é o caso da Argonautica, de Apolónio de Rodes. É nesse período, aliás, que foram editadas por bibliotecários da Biblioteca de Alexandria as versões sedimentadas de forma escrita da Ilíada e da Odisseia que chegaram até nós.
Mas mesmos esses poetas do período helenístico, que já se enxergavam como autores de forma individual, não ignoravam que suas criações autorais só eram possíveis devido a toda uma tradição cultural coletiva que veio antes deles.


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